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Negros têm 49% mais chance de serem assassinados no Brasil, indica estudo
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Polícia

Negros têm 49% mais chance de serem assassinados no Brasil, indica estudo

Redação com web

Estudo da USP revela que, no Brasil, pessoas negras têm 49% mais chances de morrer assassinadas do que brancas, mesmo quando controlados fatores como idade, escolaridade, sexo e local de moradia, indicando a cor da pele como fator de risco independente. A pesquisa confirma padrões históricos de violência racial, apontados por especialistas como expressão do racismo estrutural, e reforça a necessidade de políticas públicas, reformas na segurança e investimentos em educação para enfrentar o problema.

No Brasil atual, a cor da pele é fator de risco. Pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP) e publicada nesta sexta-feira (23/01) indica que pessoas negras têm 49% mais chances de morrer assassinadas do que aqueles identificados como brancos.

O estudo foi realizado pelos médicos Antonio Pazin Filho, professor na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, e Rildo Pinto da Silva, pesquisador na mesma instituição, a partir do cruzamento de dados do Censo de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com os do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. A pesquisa foi publicada na revista Ciência & Saúde Coletiva.

“Há fortes evidências de que simplesmente a cor da pele é a causa de morte violenta”, afirma Silva. Ele explica que o estudo foi desenhado criando “grupos iguais que sejam diferentes apenas na cor da pele” justamente para verificar se o desfecho “morte violenta” é diferente para negros em relação à cor de comparação, no caso a branca. “É possível afirmar que […] negros, pardos e pretos, morrem mais por morte violenta que os brancos em função da cor da pele. E esse é um ponto importante do estudo: a tentativa de mostrar causalidade relativa à cor da pele”, explica.

Cor da pele como fator de risco

Este trabalho, que levou quase quatro meses, serviu para eliminar o peso de outros fatores, como escolaridade, idade, sexo e local de moradia. Assim, os pesquisadores chegaram ao peso que a cor da pele tem como fator de risco independente para que um brasileiro morra assassinado.

Silva diz que seu trabalho atualiza “um dado sabido” ou seja, “que negros morrem mais [de forma violenta] do que brancos”. E, acima de tudo, demonstra que “há forte evidência de que isso seja em grande parte devido à cor da pele”.

Em números absolutos, a discrepância entre negros e brancos é ainda maior. Em 2022, conforme aponta a pesquisa, houve 42.441 mortes por homicídio no país. Destes, 32.540 – quase 80% do total – eram pretos ou pardos. Foram identificadas como brancas 8.968 vítimas.

Casos com repercussão midiática

De certa forma, a pesquisa explicita e confirma com dados aquilo que já se vê em casos de repercussão midiática.

Por exemplo o que ocorreu em São José do Rio Pardo, interior paulista. No dia 10 de janeiro, um jovem negro morreu no hospital. Segundo testemunhas, ele havia sofrido agressão policial horas antes.

Julho, 2025. Um marceneiro carregava uma mochila e foi atingido por um disparo na cabeça quando aguardava o ônibus em Parelheiros, na zona sul de São Paulo. Ele era negro. Conforme boletim de ocorrência, o tiro foi dado por um policial, por engano.

Cinco anos atrás, uma operação policial deixou 28 mortos no bairro do Jacarezinho no Rio de Janeiro. Todos negros. Ato convocado pelo movimento Coalização Negra por Direitos classificou o episódio de genocídio.

Agosto de 2025. Um homem negro entrou em um supermercado em Santo André, na Grande São Paulo. O segurança o achou suspeito e atirou contra ele, que não sobreviveu.

Em novembro de 2020, um prestador de serviço negro foi espancado e asfixiado até a morte por seguranças de um supermercado em Porto Alegre , desencadeando uma onda de protestos antirracistas em todo o país.

No artigo A Dor da Cor: A Maior Chacina da Democracia Brasileira e o Rio de Janeiro a questão racial é lembrada como central ao analisar as vítimas da operação policial que deixou 132 mortos no Rio, em outubro. O texto é assinado pelo defensor público Patrick Caicedo, professor na Universidade de São Paulo (USP), e pelos sociólogos Marcelo Campos, professor na Universidade Federal de Juiz de Fora e presidente da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação, e Paulo César Ramos, coordenador do projeto Reconexão Periferias e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento.

“Normalização”

O médico Silva argumenta que o rigor científico da pesquisa faz com que seja “muito difícil fugir da afirmação de que a violência tem como causa a cor da pele”. “Um negro tem maior risco de ser assassinado que um branco, mesmo vivendo em municípios com alta violência”, pontua.

“Acho que a violência contra negros está passando por um processo de normalização, alimentada pela polarização social e política”, comenta. “Conversei com algumas pessoas, todas brancas, sobre o estudo. A reação delas foi do tipo: ‘isso é óbvio’ ou ‘isso é normal’.” Para o pesquisador, há uma tendência “desumanizadora” da questão.

Silva acha importante ressaltar que ele próprio é branco. “A resposta que se pretende é ‘isso é importante’”, salienta.

Especialistas ouvidos pela reportagem veem o estudo como importante. “E, infelizmente, com dados que são coerentes ao padrão histórico que já conhecemos no Brasil”, avalia o jurista Flávio de Leão Barros Pereira, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Pereira enfatiza que o estudo deixa claro o quanto “o recorte racial”, na sociedade brasileira, é um “marcador de risco”.

“O que ele revela é algo mais profundo e mais perverso: a cor da pele opera como marcador social de desproteção. Pessoas negras são vistas como suspeitas, descartáveis ou passíveis de violência letal, tanto em contextos interpessoais quanto institucionais”, completa o filósofo e teólogo David Santos, frade franciscano e diretor-executivo da organização Educafro Brasil. “Isso é racismo estrutural em ação, um sistema que produz mortes, mesmo quando ninguém verbaliza o preconceito.

O sociólogo Paulo Niccoli Ramirez, professor na Fundação Escola de Sociologia de São Paulo e na Escola Superior de Propaganda e Marketing, lembra que os números “comprovam o diagnóstico de vários intelectuais brasileiros”, que já vêm revelando o quanto “a sociedade brasileira é racista”.

“Há um processo em marcha desde a colonização de extermínio dos corpos negros”, descreve ele. “É como se os corpos negros fossem descartáveis, matáveis, em uma sociedade dominada por brancos”.

“Resultado não traz surpresa”

Tal discurso ecoa o que escreveu o intelectual e ativista Abdias do Nascimento (1914-2011), no livro O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado, publicado em 1978. Na obra, Nascimento desconstrói o mito de que haja uma harmonia racial no Brasil.

Para Santos, a pesquisa publicada hoje traz “grave preocupação e indignação ética”, ainda que não represente “surpresa”.

“O estudo confirma, com rigor científico incontestável, aquilo que o movimento negro brasileiro denuncia há décadas: o racismo, no Brasil, mata. O dado mais contundente e politicamente revelador é demonstrar que, mesmo quando se controlam variáveis como escolaridade, idade, sexo e território, a população negra permanece exposta a um risco substancialmente maior de homicídio”, enfatiza Santos. “Isso desmonta qualquer narrativa que tente reduzir essa violência à pobreza ou à desigualdade social em abstrato.”

Caminhos

Se a pesquisa escancara o problema, é possível pensar em caminhos para melhorar a situação. O médico Silva acredita que a mudança depende de três eixos: mais ativismo, com grupos representativos se apropriando de estudos como este para pressionar autoridades para mudanças estruturais; evitar respostas simplistas e polarizadas, buscando combater problemas locais com planos de ação que considerem as complexidades; e mais investimentos em educação de qualidade – o que, para ele, representaria uma mudança estruturante verdadeira.

“A superação desse quadro exige intervenção política profunda, que vá além de medidas superficiais”, acrescenta David Santos. “Precisamos de reformas estruturais na segurança pública, com controle rigoroso do uso da força, responsabilização efetiva de abusos, educação antirracista, políticas públicas que reduzam desigualdades e afrontem diretamente o racismo institucional.”

Redação com web

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