El Niño severo pode elevar a inflação dos alimentos a 10% em 2026
Brasil em alerta
A chegada do El Niño coloca o Brasil em alerta para efeitos no campo que deverão chegar à mesa do consumidor. A inflação dos alimentos pode chegar a 10%, num cenário extremo de lavouras e pecuária afetadas. Enquanto agentes do mercado financeiro estimam IPCA de 5,33% ao final de 2026, a inflação dos alimentos deverá ser bem mais alta em função do fenômeno climático e da Guerra no Irã a partir do segundo semestre e até meados de 2027.
O El Niño traz mais chuvas para o Sul e Sudeste, e estiagem para o Centro-Oeste, Norte e Nordeste, com prejuízos diretos na lavoura. A diferença desta vez é que os institutos especializados confirmam o fenômeno com a possibilidade de efeitos severos.
"O evento vai ocorrer num período crítico para a safra de grãos. A partir de setembro começa o plantio. A questão é saber a classificação: se será fraco, forte ou super forte. As últimas estatísticas do NOA mostram 60% de chances de ser um super El Niño", afirma a assessora técnica da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Danyella Bonfim, a grande questão é saber a intensidade do evento climático.
Ainda que especialistas tratem do tema sem alarme, há expectativa de quebra na próxima safra de verão, o que poderá resultar em preço mais alto para os produtos do dia a dia, como frutas, legumes, hortaliças, arroz e feijão. Nestes itens, o Brasil não tem margem para fazer importações, como ressalta o economista e coordenador dos Índices de Preços do FGV Ibre, Andre Braz.
"Mas a gente ainda pode importar leite, carne, não vai resolver o problema da inflação, porque o preço vai subir porque se importa em dólar e a nossa moeda está desvalorizada, mas evita o desabastecimento, a falta do produto. A questão é aquele alimento que não se tem muita flexibilidade para importar, como feijão, por exemplo, né? E toda essa parte dos alimentos de feira livre, que é a alimentação mais saudável".
Além dos efeitos sobre os alimentos, a escassez de chuvas em áreas de hidrelétricas pode resultar ainda em aumento da energia elétrica. Em 2024, que foi um ano de El Niño, 16 estados e o Distrito Federal enfrentaram a pior estiagem desde a década de 80, e a Aneel acionou a bandeira vermelha. Antes disso, o governo tinha acionado o sobrevalor na tarifa em 2021, ano de forte estiagem.
O último El Niño foi registrado em 2023 e 2024. Combinado a outros fatores, foi um dos responsáveis pela maior enchente da história do Rio Grande do Sul. No estado, entidades do setor rural orientam os produtores a se prepararem, especialmente para a safra de verão. A engenheira ambiental Paula Hofmeister, da Federação das Associações Rurais do Rio Grande do Sul, afirma que a orientação é informar os agricultores, sem gerar alarme.
"Sabendo que a gente está acompanhando o cenário mundial global da questão do El Ninho e que aqui no estado do grande sul os anos de El Ninho eles são anos com mais chuva e que inclusive se a gente tiver chuvas acima da média máximo moderada pode ser um ano muito bom para uma safra", afirma.
A família do produtor Pablo Rocha Marques, que tem terras na Fronteira Oeste do RS e Argentina, pretende arrendar as áreas de terceiros nos próximos seis meses. Como consultor técnico, ele também destaca que como medida possível, mas com custos elevados, é o confinamento do gado. Isso porque os campos mais baixos são suscetíveis a enchentes.
"Há casos em que metade da fazenda fica embaixo d'água por 15 dias, 20 dias, e tu tem que ter outros campos para levar o gado, o que é difícil, ou arrendar com antecipação, porém nunca se sabe quando a enchente realmente vem, né? Esse é o principal problema".
Já nas regiões com previsão de estiagem, a principal recomendação é seguir o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), ferramenta da Embrapa que indica o melhor período para o plantio. Quem explica é o pesquisador Alfredo Luiz, da Embrapa Meio Ambiente.
"A primeira recomendação é seguir a época recomendada no ZARC. A ferramenta, inclusive, apresenta informações sobre a probabilidade de sucesso de 60%, 70% ou 80% de cada cultura em cada município. A outra recomendação, a chuva não começou quando normalmente começa, que ele espere que a chuva se estabeleça para o plantio".
Especialistas também recomendam o uso de sementes mais resistentes e a adoção de novas tecnologias para reduzir os impactos do El Niño e das mudanças climáticas. O gerente-executivo da CropLife Brasil, Renato Gomides, destaca a importância do manejo integrado da produção, já que "tudo começa pelo preparo do solo, pela escolha da melhor semente. Além disso, existem muitos dados de estresse climático e qual é a janela ideal para planta. Sob tudo isso está a tecnologia para aumentar a produtividade".
Para a Embrapa Meio Ambiente, a adaptação às mudanças climáticas precisa deixar de ser uma medida emergencial e passar a fazer parte da rotina do campo. O desafio é produzir mais em um cenário de temperaturas elevadas, chuvas irregulares e eventos climáticos cada vez mais extremos.