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Rei sem trono fica nu após se fantasiar de monstro e perder duelo de ameaças no deserto
Trump não desata nó do Estreito de Ormuz e transforma países árabes aliados em alvos do Irã

Rei sem trono fica nu após se fantasiar de monstro e perder duelo de ameaças no deserto

Romero Vieira Belo

Inteligência do governo Trump confundiu potencial do Irã com anemia crônica da Venezuela

Com atributos de um ilusionista do mal, especializado em projetar cenários de mortes e destruição em grau de extermínio pendendo para holocausto, ele também se sobressai como imbatível contador de mentiras.
Em meados do ano passado, o mundo inteiro lembra, Donald Trump ignorou o Congresso Nacional dos Estados Unidos e mandou bombardear o Irã. Após a agressão, cantou de galo e proclamou: "Fim da era atômica na terra dos aiatolás. Destruímos todo o complexo nuclear dos iranianos".
Menos de um anos depois, em março último, o velho aspirante a imperador do mundo fundiu suas forças com o aparato bélico de Israel e os dois, juntos e mancomunados, despejaram toneladas de bombas sobre o território iraniano. Justificativa: "O Irã é uma grave ameaça aos EUA"...
Ombreado com o chefe israelense Benjamin Netanyahu (processado em seu próprio país por corrupção) voltou a se divertir com o efeito devastador dos bombardeios mortíferos e fez pouco caso ao saber que, numa das incursões, o heroico Exército americano matou 174 adolescentes ao destruir um educandário de meninas na região de Teerã. Um caso indescritível, impensável de barbárie sem limites.
Adepto da cultura dos 'sem palavra', o bravateiro da Casa Branca se excede no exercício de um vai-e-vem que não se completa e não acaba nunca. Prometeu terminar com os ataques ao Irã em 48 horas, recuou, anunciou guerra por mais uma semana, mais duas semanas, voltou atrás, tornou a prometer e, dessa vez, deixou a parte crédula da humanidade sem fôlego: "Ou abrem o Estreito de Ormuz ou acabo com a civilização em uma noite". Erupção de bazófio?
Não era Trump, um mero e transitório presidente discursando, era um deus de mentira prometendo destruição em massa, condenando 90 milhões de pessoas a um meteórico massacre descomunal sem precedente na história humana.
Tinha com o fazê-lo? Certamente. Bastaria acionar alguns bombardeiros B-52 e despejar dezenas de bombas atômicas sobre o território iraniano. A população seria totalmente carbonizada, pulverizada, aniquilada mas sem causar traumas nos EUA. Afinal, os compatriotas do 'biquinho' malvado já haviam contemplado as cenas dantescas de Hiroshima e Nagasaki, alvos das primeiras bombas atômicas da história.
O ponto nevrálgico agora era o fechamento do Estreito de Ormuz, controlado pelo Exército do Irã. O bloqueio travou a passagem de milhares de navios, impedindo o fluxo de mais de 20 por cento do petróleo mundial. Um nó górdio na esperteza do chefão desafiado. Os preços do óleo dispararam dentro e fora dos EUA, a desordem econômica se espalhou e a pressão deixou Trump arrepiado, agônico, sem alternativa. Fazer o quê?
Enquanto isso, a mídia noticiava a reação do Exército iraniano bombardeando Israel e destruindo aviões americanos. Em um dos ataques, um avançado caça foi derrubado, um dos pilotos evadiu-se e o segundo, depois de ejetado, escondeu-se numa caverna. Para resgatá-lo, as forças de Trump acionaram 155 aviões militares. Por extenso: cento e cinquenta e cinco aviões de guerra. Donald comemorou, mas logo se deu conta da verdade que o mundo já conhecia: o controle de Ormuz pelo Irã derrotou Estados Unidos e Israel. Diante do revés, movido por ímpeto de tresloucado, o feroz Trump ameaçou destruir em apenas uma noite uma civilização de 3 mil anos.
Parecia, mas, obviamente, não era pra valer. O homem que subjugou seu próprio povo sabia e sabe que o Irã de hoje possui bombas, foguetes, mísseis, drones e minas subaquáticas para resistir e manter o bloqueio da rota do petróleo. Também sabe que, como ainda existe limite para loucos na terra de George Washington, não teria nunca como acionar, sem consenso das instituições nacionais, os códigos guardados a sete chaves a fim de aniquilar a civilização iraniana com uma tempestade de ogivas nucleares...
Assim sendo, o passo atrás, mais um, estava ensaiado. O prazo de 48 horas era crítico e, justo por isso, o imperador de brinquedo notou sua mente obnubilar e rapidinho sentiu que estava em um beco sem saída. O popular 'sinuca de bico'. Apelou então para o de sempre - mentir, inventar narrativas, anunciar negociações sem negociadores. 
No auge do aperreio, lembrou-se de Deus e entregou-se a rogos e preces. Silente e recolhido, suplicava por uma 'saída honrosa'. Até que, no clímax do desespero pessoal, recebeu a notícia de 'um acordo' costurado pelo governo do Paquistão, sob orientação da China. Descompressão total. 
Salvo pelo gongo, livre da humilhação iminente,  Donald libertou-se do suor frio e abundante, deu de ombros para os comprimidos contra cefaleia braba e finalmente se indagou diante de um espelho de cristal: 
- Será que ainda vou me meter noutra enrascada dessas?
Quem ganhou? 
Ainda não acabou, está em vigor um esfarrapado cessar-fogo de duas semanas, mas a opinião pública mais isenta não para de fazer uma indagação que tem tudo a ver: como um país do Oriente, cujos habitantes Trump chamou de 'animais', consegue resistir às forças armadas, unidas e reunidas, dos Estados Unidos e Israel somados e dobrados?
Não esquecer que, enquanto o Irã resiste, se defende e mantém o controle do Estreito de Ormuz, tudo isso sem receber apoio de fora, o auto-proclamado imperador norte-americano, em gesto crítico de indisfarçável derrota, já suplicou por ajuda armada dos países europeus, chegou a ameaçá-los, mas acabou desdenhado e não obteve socorro de nenhum deles.
Em Washington, enquanto isso, o dedicado assessor presidencial John Pignattari, o mais íntimo e confiável da Casa Branca, bem que poderia, no devido tempo, isto é, antes de iniciada a agressão bélica contra o Irã, ter alertado o velho boss dominado por ideias insanas, mas preferiu recolher-se, não viu clima para advertir Trump sobre o óbvio: fazer mais uma vez o jogo de Israel poderia custar muito caro aos americanos. Ia 'deixar pra lá', recolher-se ao seu espaço diminuto, mas pensou um pouco e resolveu recuar. Pegou a caneta e escreveu numa folha de bloco colocando-a sobre o birô presidencial:
- Querido chefe, resgate unitário, de um só homem, mobilizando 155 aviões, foi demais! Com todo respeito e admiração, mas passei horas avaliando o salvamento do piloto sumido e conclui que, das duas, uma: ou o valoroso aeronauta escondeu-se na região mais impenetrável do inferno ou nossa outrora insuperável força aérea está definitivamente falida. Abraços do John.

 

Romero Vieira Belo

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