Dez anos do impeachment de Dilma: por onde andam principais envolvidos
Há exatos dez anos, no dia 17 de abril de 2016, a Câmara dos Deputados promoveu a sessão histórica que deu início ao impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT). O evento cimentou o que viria a ser a era da polarização no Brasil e, após dois ciclos presidenciais, parte dos protagonistas da destituição continua na configuração eleitoral do país.
Eleita em 2010 com 56% dos votos contra José Serra (PSDB), Dilma foi a primeira presidente mulher do Brasil e a segunda pessoa no cargo a sofrer um impeachment. No ano da vitória, também foi nomeada “brasileira do ano” pela IstoÉ, iniciando uma jornada que terminaria com menos de 10% de aprovação no último mandato.
Dilma chegou ao cenário eleitoral como a herdeira política de Lula, conhecida inicialmente como ministra da Casa Civil do petista. Em um bom momento econômico, o Brasil aceitou a ex-guerrilheira que adotava caráter sério, de economista discreta, muitas vezes chamada de “pulso firme” – algo que afagou a classe média do país.
‘No Brasil, até Jesus teria que se aliar a Judas’
Em meio às coalizões que preparavam o ano eleitoral de 2010, o então presidente Lula dizia à Folha de S. Paulo que, no Brasil, “até Jesus teria que se aliar a Judas”. Quando Michel Temer (PMDB, hoje MDB) foi apresentado como vice na chapa de Dilma Rousseff, parte dos aliados já criticavam o afastamento do campo progressista que protagonizaria a derrocada da petista.
Com Dilma no poder, a adoção da chamada “nova matriz econômica” – baseada em maior intervenção, controle de preços, desonerações e crédito subsidiado – sustentou os números a curto prazo, mas acabou colaborando para desequilíbrios fiscais. A partir de 2014, o cenário se deteriora rapidamente com a recessão, o desemprego e a inflação, em meio à queda das commodities e à desaceleração global.
Em paralelo, a crise econômica se combinou à crise política, marcada por relação conflituosa com o Congresso. Naquele momento, a base aliada encontrava-se fragmentada e o avanço da Operação Lava Jato aprofundava a polarização que começou a ser enraizada nas manifestações de junho de 2013.
Crime de responsabilidade ou golpe?
O pedido de impeachment foi formalmente baseado nas chamadas pedaladas fiscais — atrasos em repasses a bancos públicos — e na edição de decretos de crédito sem autorização do Congresso. As práticas foram enquadradas como “crime de responsabilidade” segundo o texto feito por Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior e Janaína Paschoal.
Ainda assim, o enquadramento jurídico dessas práticas permanece sendo alvo de discussão, uma vez que medidas semelhantes já foram adotadas por governos anteriores sem resultar em punição. Parte dos juristas sustenta que não houve comprovação de gravidade suficiente para justificar a destituição, além de que não existiram acusações de corrupção pessoal contra Dilma.
A denúncia foi acolhida em dezembro de 2015 pelo então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB, hoje MDB), dando início formal ao processo na Casa. A votação entre os deputados foi de 367 votos a favor e 137 contra, em uma das sessões mais emblemáticas da década. Diante da deliberação, a questão foi levada e também aprovada pelo Senado Federal, oficializando a destituição da presidente em exercício.
Por onde andam os protagonistas do impeachment
Dilma Rousseff

Após enfrentar um período de descredibilidade que contou com a prisão de Lula e recrudescimento da extrema-direita brasileira, a líder impeachmada alçou a um cargo internacional e hoje atua como presidente do Banco dos BRICS. Ela assumiu a função em 2023, foi reconduzida, e deve ficar à frente da instituição até o fim da década.
O banco tem sede em Xangai, na China — cidade onde Dilma passou a viver desde que assumiu o posto — e atua financiando projetos de infraestrutura e desenvolvimento em países emergentes.
“Não gostaria de estar no lugar dos que se julgam vencedores. A história será implacável com eles”, disse Dilma no discurso pós-impeachment ao classificar o ato como “golpe”.
Michel Temer
Desde que deixou o mandato-tampão, Michel Temer tem atuado principalmente como advogado, professor e articulador político nos bastidores do MDB. Mesmo que seu nome tenha voltado a ser cogitado para concorrer à Presidência em 2026, ele afirmou não pretender disputar novamente.
Na época da deposição de Dilma, Temer era vice-presidente e assumiu o comando do Brasil por mais de dois anos, desencadeando uma onda histórica de manifestações que pediam “Fora Temer”.
“É preciso construir um governo de salvação nacional e união nacional”, disse Temer em áudio vazado em 2016, antes mesmo do impeachment ser votado.
Hélio Bicudo
Um dos fundadores do PT, o jurista Hélio Bicudo subverteu as raízes e tornou-se uma das principais vozes contra a legenda a partir de 2005, marcando seu nome como um dos autores do pedido de impeachment contra Dilma.
Dois anos após o processo de deposição, Hélio faleceu aos 96 anos em decorrência de diversos problemas de saúde.
“Impeachment é um remédio prescrito na Constituição”, declarou Bicudo ao assinar documentos do pedido de impeachment.
Janaína Paschoal
Após ganhar projeção nacional como uma das autoras do pedido de impeachment de Dilma, a jurista Janaína Paschoal seguiu carreira política. Depois de ter sido deputada estadual em São Paulo entre 2019 e 2023, ela foi eleita vereadora da capital paulista nas eleições de 2024, pelo PP. Paralelamente, continua atuando como professora de Direito Penal na Universidade de São Paulo e como advogada.
Em 2026, Janaína afirma que pretende priorizar o mandato na Câmara Municipal de São Paulo, embora admita a possibilidade de disputar uma vaga ao Senado no futuro.
“Peço que ela um dia entenda que eu fiz isso também pensando nos netos dela”, disse Paschoal sobre Dilma durante discurso no Senado na sessão final do impeachment.
Miguel Reale Júnior
Terceiro e último autor do pedido de impeachment, Miguel Reale Júnior segue atuando como advogado e jurista em São Paulo. Aos 81 anos, ele também é comentarista de política em diferentes veículos e continua ligado à Faculdade de Direito da USP, onde foi professor de Direito Penal até se aposentar.
Nos últimos anos, Reale Júnior se afastou do PSDB e passou a fazer críticas ao governo de Temer e de Jair Bolsonaro. Em 2021, inclusive, protocolou um pedido de impeachment contra Bolsonaro e, na eleição de 2022, declarou voto em Lula.
“Dilma tornou-se indigna de presidir o Brasil”, declarou em discurso no Senado em 2016.
Eduardo Cunha
Presidente da Câmara na época, Eduardo Cunha atuava pelo PDMB (atual MDB) e foi o responsável por pautar o impeachment de Dilma na Casa. No ano seguinte, teve o mandato cassado e chegou a ser preso no âmbito da Lava Jato.
Com o fim da inelegibilidade previsto para este ano, Cunha se filiou ao Republicanos e tenta voltar como deputado federal por Minas Gerais em 2026 após se mudar para Belo Horizonte e intensificar atuação junto ao eleitorado conservador e evangélico. O pré-candidato ainda pretende usar o impeachment de Dilma como símbolo de campanha, sustentando que o ato possibilitou a ascensão da extrema-direita atual.
“Que Deus tenha misericórdia dessa nação”, disse Cunha durante seu voto a favor do impeachment.
José Eduardo Cardozo
José Eduardo Cardozo foi o principal advogado da defesa de Dilma no processo de impeachment. Ele atuava como Advogado-Geral da União no governo da petista e a representou até a oficialização da deposição pelo Senado.
Desde o ocorrido, Cardozo deixou a política eleitoral e tem trabalhado principalmente como advogado, professor e comentarista na CNN. Ele também é sócio de um escritório de advocacia, segue vinculado ao PT, mas sem exercer mandato.
“Um impeachment sem base legal jamais será perdoado pela história”, prenunciou Cardozo na tese de defesa da então presidente.
Renan Calheiros
Renan Calheiros era presidente do Senado e foi responsável por conduzir as etapas finais do processo de impeachment depois da aprovação dos deputados. Ele foi decisivo ao rejeitar o pedido de anulação da votação da Câmara feita por decisão monocrática de Waldir Maranhão – que havia assumido a presidência interina da Casa após afastamento de Eduardo Cunha.
Em 2026, Renan Calheiros segue como um dos principais nomes do MDB e continua atuando como senador por Alagoas, com forte presença no Congresso Nacional. Ele permanece ativo em articulações políticas, relatando projetos, participando de comissões e influenciando debates importantes no Senado.
“A história é aberta, plural e permitirá diversas interpretações”, declarou Calheiros na abertura do impeachment no Senado.
Ricardo Lewandowski
Ricardo Lewandowski presidiu o julgamento do impeachment de Dilma no Senado em 2016, conduzindo o rito como então líder do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele garantiu o direito de ampla defesa e organizou a condução das sessões, atuando como mediador entre acusação e defesa.
Um dos pontos mais relevantes foi sua decisão de permitir votações separadas: primeiro sobre a perda do mandato e depois sobre a inabilitação para funções públicas. Isso possibilitou que o Senado cassasse Dilma, mas mantivesse seus direitos políticos.
Dez anos depois, Lewandowski está fora do STF desde sua aposentadoria em abril de 2023, após 17 anos na Corte. Logo depois, voltou à vida pública ao ser convidado pelo governo Lula para assumir o cargo de ministro da Justiça e Segurança Pública, função que ocupou até dia 10 de janeiro de 2026, quando pediu demissão.
“A cada 25, 30 anos, temos um tropeço na nossa democracia. Lamentável. Quem sabe vocês jovens consigam mudar o rumo da história”, afirmou Lewandowski logo após o impeachment, dirigindo-se aos alunos da Faculdade de Direito da USP.
Jair Bolsonaro
Deputado federal pelo PSC à época, Jair Bolsonaro foi um dos principais políticos a capitalizar a onda de antipetismo forrada pela deposição de Dilma. Ele ficou marcado por homenagear o coronel Brilhante Ustra – primeiro militar reconhecido pela Justiça brasileira como torturador e responsável pelas violências contra Dilma durante a ditadura – no discurso do voto a favor do impeachment.
Dois anos depois, Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil pelo PL e tornou-se o maior símbolo da extrema-direita do País, ancorado em pautas conservadoras e críticas ao campo progressista encabeçado pelo PT.
Com a volta de Lula ao cenário eleitoral e sua subsequente vitória presidencial em 2022, Bolsonaro e aliados articularam um golpe de Estado com intenção de impedir que o petista tomasse posse. Apoiadores bolsonaristas chegaram a invadir e depredar a Praça dos Três Poderes, em Brasília, e investigações posteriores comprovaram a existência de um plano com objetivo de assassinar Lula e figuras como o ministro do STF Alexandre de Moraes.
Como resultado da conspiração, Bolsonaro foi julgado, condenado e preso no final de 2025 em decorrência de cinco crimes: organização criminosa armada, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado pela violência e grave ameaça e deterioração de patrimônio tombado. Bolsonaro segue preso em regime domiciliar alegando motivos de saúde e deve permanecer detido até 2030.
O legado político, porém, mantém o mesmo sobrenome: o filho mais velho do ex-presidente, Flávio Bolsonaro, é pré-candidato ao Planalto em 2026 e o favorito para enfrentar Lula.
“Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de tudo, o meu voto é sim”, disse Bolsonaro ao votar pelo impeachment de Dilma em 2016.
Jean Wyllys
Jean Wyllys era deputado federal pelo Psol no ano do impeachment e protagonizou uma das cenas mais emblemáticas da sessão de votação na Câmara. Após ser ofendido por falas homofóbicas de Jair Bolsonaro, o parlamentar respondeu com uma “cusparada” contra o bolsonarista.
O episódio rendeu ameaças a Wyllys, que decidiu renunciar ao cargo e se mudar para a Espanha. Hoje, está filiado ao PT e é pré-candidato a deputado federal por São Paulo em 2026. Também atua como escritor, comentarista e pesquisador, com doutorado em Ciência Política na Universidade de Barcelona.
“Estou constrangido de participar dessa farsa conduzida por um ladrão, ungida por um traidor conspirador, apoiada por torturadores, covardes, analfabetos políticos e vendidos. Eu voto não ao golpe!”, declarou Wyllys ao votar contra o impeachment em 2016.









