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Barco, PCC e funk: as conexões que ligam MC Ryan e Poze do Rodo ao crime organizado
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Barco, PCC e funk: as conexões que ligam MC Ryan e Poze do Rodo ao crime organizado

Redação com web

MC Ryan SP, Poze do Rodo e o dono da página Choquei foram presos em operação da Polícia Federal que investiga um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC, com movimentação estimada em R$ 1,6 bilhão por meio de rifas e apostas ilegais. Segundo a PF, os artistas usariam a ostentação e negócios do funk para misturar recursos lícitos e ilícitos, enquanto as defesas contestam as acusações. O caso abalou o universo do funk, mas o gênero segue em alta nas plataformas musicais, apesar das investigações.

Nas redes sociais, MC Ryan SP e Poze do Rodo não escondiam o alto padrão de vida que conquistaram com o funk. Carros de luxo, aviões, helicópteros, viagens para Paris e fotos com artistas, como o atacante Neymar, hoje no Santos. As imagens vão em contraste com as imagens vistas na última semana, quando os funkeiros foram presos pela Polícia Federal em uma operação contra lavagem de dinheiro e elo com organizações criminosas.

Na última quarta-feira, a PF cumpriu mais de 30 mandados de prisão e diversos mandados de busca e apreensão contra um grupo que supostamente lavava dinheiro para membros do Primeiro Comando da Capital (PCC). Ryan é apontado como líder do esquema, que tinha apoio de Poze do Rodo e de Raphael Sousa Oliveira, dono da página Choquei, uma das maiores páginas de fofoca nas redes sociais. Ao todo, o grupo teria movimentado cerca de R$ 1,6 bilhão entre rifas e apostas. A organização ainda enviava remessas para o exterior para lavar o dinheiro do crime.

O que aconteceu

  • MC Ryan SP, Poze do Rodo e Raphael Sousa Oliveira, dono da Choquei, foram presos pela Polícia Federal.
  • A operação NarcoFluxo investiga um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou cerca de R$ 1,6 bilhão para o PCC.
  • O grupo, que incluía os funkeiros e o influenciador, utilizava rifas e apostas para mascarar os recursos ilícitos.

Os funkeiros são apenas um braço do esquema que começou a ser investigado em 2025. Um barco apreendido em águas de Serra Leoa, na África, foi a ignição que ligou um dos maiores sucessos do funk ao crime organizado. Na embarcação, a PF apreendeu toneladas de cocaína e apontou o elo entre o entorpecente e o contador Rodrigo Morgado, preso em 2025 após uma operação contra um esquema de apostas.

Investigadores interceptaram conversas de Morgado com Ryan que detalham o esquema de divulgação de casas de apostas e jogos de azar. Para a PF, o funkeiro faturava um dos maiores cachês do gênero musical no país de forma legal, mas misturava esses valores com recebimentos de rifas ilegais e divulgação de apostas, como o Jogo do Tigrinho. Em uma das conversas interceptadas, MC Ryan disse a Morgado que cobrava cerca de R$ 300 mil para anunciar uma casa de apostas em suas redes sociais. Os valores eram destinados para a compra de jóias, carros de luxo e mansões pelo país.

MC Ryan foi preso em um condomínio de alto padrão em Bertioga, no litoral paulista. O artista, que tem 15 milhões de seguidores nas redes sociais, está detido na carceragem da PF em São Paulo. A IstoÉ tentou contato com o advogado de defesa do funkeiro, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.

Ryan é apontado pela PF como líder do esquema que tinha Poze do Rodo e Raphael Oliveira como partes da engrenagem. Também funkeiro, Poze do Rodo conta com mais 15 milhões de seguidores nas redes sociais e faz questão de ostentar vários cordões e anéis de ouro, fotos com jogadores de futebol e não esconde a amizade que tem o Oruam, outro funkeiro e filho de Marcinho VP, um dos líderes do Comando Vermelho. Poze também é colocado como um dos operadores da lavagem de dinheiro no esquema e mascarava os valores legais e ilícitos para dificultar a fiscalização bancária. O funkeiro foi preso no Rio de Janeiro e está preso na Penitenciária de Bangu 1, de segurança máxima.

Outro elo nessa engrenagem é Raphael Oliveira, dono da Choquei. Ele foi responsável pela promoção dos membros da organização criminosa em sua página nas redes sociais, que conta com 27 milhões de seguidores. Em 24 de março deste ano, por exemplo, a Choquei publicou que Ryan tinha um cachê que varia entre R$ 350 mil e R$ 400 mil por show. Oliveira foi detido em Goiás e segue preso no Núcleo Especial de Custódia do Complexo Prisional Policial Penal Daniella Cruvinel, também de segurança máxima.

Vai e vem

Na última quinta-feira, 23, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou a soltura de todos os presos na operação NarcoFluxo. Na decisão, o ministro Messod Azulay Neto afirmou classificou como ilegal a decisão que decretou a prisão temporária dos suspeitos por 30 dias e disse que a própria autoridade polícial havia solicitado uma prisão de cinco dias. As defesas dos réus chegaram a comemorar a decisão, mas houve pouco tempo para festas.

À tarde, a PF apresentou à Justiça Federal o pedido de prisão preventiva de Ryan, Poze do Rodo e os outros suspeitos investigados no esquema. Os investigadores apontaram que a liberdade dos suspeitos ameaçaria a integridade das provas. O pedido foi acatado horas depois pela 5ª Vara Federal de Santos.

Em nota, a defesa de Poze do Rodo afirmou estar confiante em uma nova revogação da prisão do funkeiro e ressaltou não haver nada de novo no pedido da PF. “’Não há nada de novo em relação à Marlon Brandon neste novo decreto prisional. Levaremos os motivos que devem revogar esta prisão à Justiça, sempre confiantes no Poder Judiciário”, disse o advogado Fernando Henrique Cardoso Neves.

“O novo pedido de Prisão feito pela Polícia Federal não traz absolutamente nada de novo. Pior: alega impossibilidade de análise de todos os materiais coletados anteriormente mas contou com o Delegado responsável participando de entrevistas e compartilhando dados e informações de uma investigação sigilosa durante o final de semana”, completou.

A IstoÉ tentou contato com os advogados dos demais citados nesta reportagem, mas não conseguiu localizar as defesas.

Da periferia ao topo da indústria

Nascido nas periferias, o funk é hoje o gênero mais tocado nas plataformas musicais do Brasil, e também avança sobre mercados internacionais. Desde o final de 2025, o Spotify registra que o som que foi conhecido em seus primórdios como “de preto e favelado” vem dominando o top 10 dos streams, superando o sertanejo. O ano começou com MC Ryan SP, um dos nomes mais fortes do funk, no primeiro lugar da plataforma na lista dos artistas mais ouvidos no país. O grande impulsionador naquele momento, em janeiro, foi “Posso Até Não Te Dar Flores”, em que ele é uma das vozes.

Em três meses, o hit, um arrocha-funk, alcançou o 1º lugar no Spotify Brasil, Portugal e também no Paraguai. Ela também ficou por mais de dez semanas entre as cinco músicas mais ouvidas no ranking global da plataforma. “Posso Até Não Te Dar Flores” é uma canção do DJ paulista Japa Nk e DJ Davi DogDog em parceria com Mc Meno K e Mc Jacaré, além de Ryan.

A música, que fala de superação de um fim de relacionamento e pegação, foi a primeira lançada pela Bololô Records, a gravadora aberta por Ryan em agosto do ano passado. Ou seja, com pouquíssimo tempo de existência ela já emplacou um sucesso meteórico. A empresa também tem a proposta de agenciar artistas. A gravadora se junta a outro empreendimento do MC, o Bololô Restaurante.

Em seu Instagram, onde é seguido por 15,6 milhões de pessoas, Ryan se apresenta como CEO da Bololô Records. Aos 24 anos, até ser preso pela Polícia Federal na Operação Narco Fluxo, o MC firmava seu lado empreendedor, após ter desenvolvido boa parte de sua carreira na GR6, considerada a “maior produtora de funk e música urbana da América Latina”, como se apresenta em seu site.

Fundada por Rodrigo Oliveira (Rodrigo GR6), ela surgiu em meados de 2005, na periferia de São Paulo, focada em shows e bailes, mas com o tempo cresceu e se transformou em um conglomerado que oferece gestão completa para artistas, desde descoberta de talentos e produção de conteúdo audiovisual (com clipes e canais no YouTube) até marketing e finanças. Rodrigo GR6 também está nas investigações da PF.

Em nota, a defesa do empresário afirma que os valores mencionados “referem-se a relações comerciais lícitas e regulares, inerentes à atividade empresarial da companhia, todas devidamente formalizadas e respaldadas por contratos e documentação fiscal”. “A GR6 e seu sócio reiteram que não houve a prática de qualquer ato ilícito e seguem à disposição das autoridades competentes, colaborando integralmente com a investigação e prestando os esclarecimentos necessários”, completa a nota assinada pelo advogado José Luís Oliveira Lima. O advogado, conhecido como Juca Oliveira, é defensor do banqueiro Daniel Vorcaro no caso Banco Master e fez parte da banca de defesa do ex-ministro da Casa Civil Walter Braga Netto no processo da trama golpista.

Vale dizer que o Choquei, outra empresa investigada pela PF, publicou em março que Ryan era dono do cachê mais alto do funk, cobrando entre R$ 350 mil e R$ 400 mil por apresentação. No Spotify, ele atrai atualmente 19,2 ouvintes mensais. No YouTube, seu canal reúne 1,7 milhão de inscritos. E no TikTok, 1,4 milhão de seguidores e 16 milhões de curtidas.

Apesar dos abalos produzidos no mundo do funk com as prisões e investigações da PF, o consumo semanal do gênero se mantém em alta, de acordo com o ranking do Spotify. O primeiro lugar coube a “Relíquia do 2 T” (DJ Gu, MC Vine7, MC Tuto, MC Joãozinho VT, MC Dkziin e MC Fr da Norte), produzida pela Sonar, outra empresa do funk. “Famoso Imã | O Poderoso Chefão” (MC Lele, MC Poze do Rodo, MC Leozinho ZS e DJ Gordinho da VF) ficou na segunda posição. “Posso Até Não Te Dar Flores” ocupou o oitavo lugar. No Top 10, o funk emplacou oito hits.

Para demonstrar como o gênero se destaca entre as preferências do brasileiro, um olhar sobre as buscas do ano no Google indica que a letra de música mais procurada em 2025 foi “Mãe Solteira”, de DG, Batidão Stronda, J. Eskine, MC Davi e MC G15.

Redação com web

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