Um ano do Tarifaço: como a guerra comercial de Trump mudou a economia global
Donald Trump anunciou em 2025 um amplo pacote de tarifas sobre importações, desencadeando uma guerra comercial global que gerou instabilidade econômica e mudanças nas cadeias de suprimento. Empresas passaram a buscar países com menores tarifas, reduzindo compras da China e ampliando parcerias com outras nações, enquanto consumidores americanos acabaram arcando com a maior parte dos custos. Apesar do aumento na arrecadação dos EUA, a medida não impulsionou significativamente a indústria local e trouxe incertezas ao comércio mundial.
Em 2 de abril de 2025, Donald Trump surpreendeu o mundo ao anunciar a “independência econômica” dos Estados Unidos, impondo tarifas de importação a todos os países do planeta. Desde então, o presidente americano parece disposto a insistir nessa medida sem precedentes, mesmo com a Suprema Corte questionando a legalidade do tarifaço.
A DW analisou dados comerciais sobre a origem das importações dos EUA ao longo do último ano para entender o que as tarifas de Trump realmente alcançaram.
Como o mundo vem se ajustando a essa nova ordem econômica? E quem está se beneficiando disso?
2 de abril de 2025: Casa Branca anuncia as tarifas
No anúncio do tarifaço, no chamado “Dia da Libertação”, a Casa Branca informou que todos os países – com algumas exceções devido a sanções e acordos comerciais pré‑existentes – seriam submetidos a uma sobretaxa básica de 10% sobre todas as importações. Além disso, 85 países que exportam mais para os EUA do que importam seriam alvo de tarifas mais altas, que chegavam a até 50%.
“Não acho que as pessoas esperavam que o governo dos EUA basicamente declarasse uma guerra comercial contra o mundo inteiro”, afirma Haishi Li, economista da Universidade de Hong Kong cuja pesquisa se concentra em como tarifas e sanções afetam o comércio global.
O caos começou imediatamente, e os mercados financeiros globais despencaram. Enquanto Trump insistia publicamente que “as grandes empresas não estão preocupadas com tarifas”, o governo americano resolveu fazer, em 9 de abril, uma pausa de 90 dias em todas as tarifas acima da taxa básica de 10%.
Durante essa suspensão, diversos parceiros comerciais como União Europeia, Vietnã e Reino Unido, correram para negociar acordos comerciais na tentativa de reduzir as tarifas anunciadas. As negociações com a China permaneceram tumultuadas pelos meses seguintes, com rodadas de ameaças de tarifas recíprocas que chegaram a até 125%.
Após múltiplas extensões de última hora à pausa de 90 dias, as tarifas específicas por país finalmente entraram em vigor em 7 de agosto de 2025.
O Brasil acabaria penalizado com uma tarifa adicional de 40%. Isso elevou para 50% a alíquota extra imposta às exportações brasileiras a partir de 6 de agosto. Mas a sobretaxa acabou revertida por decisão do próprio Trump no final de novembro.
Prevendo tarifas, importadores estocaram
Mesmo antes de abril, já era claro que mudanças estavam a caminho. “As tarifas vão nos deixar ricos pra caramba”, declarou Trump ao iniciar seu segundo mandato, em janeiro de 2025.
As empresas americanas entenderam o recado. Numa corrida para encher armazéns antes que os custos aumentassem, ampliaram drasticamente os pedidos, trazendo para o país, entre janeiro e março, um volume de bens 20% maior do que a média de 2022 a 2024, um salto equivalente a aproximadamente 184 bilhões de dólares (R$ 949 milhões).
Prevendo tarifas mais altas sobre barras de ouro, por exemplo, os EUA importaram cerca de cinquenta vezes do volume habitual no início de 2025, totalizando aproximadamente 72 bilhões de dólares (R$ 371 bilhões) – principalmente da Suíça, mas também de um conjunto inesperado de fornecedores novos ou pouco comuns, incluindo Uzbequistão, Filipinas e Zimbábue.
Grandes fabricantes em toda a Ásia também registraram fortes altas, com Taiwan, Vietnã e Índia exportando volumes acima do normal para os Estados Unidos nesse período.
Empresas migraram em busca de tarifas baixas
O período de suspensão implementado em 9 de abril deu aos importadores americanos uma janela de três meses para se adaptar à nova situação.
Um estudo de Haishi Li e colegas constatou que as empresas tentaram, a todo custo, deslocar suas cadeias de suprimentos para países com menor risco tarifário. “As importações se comportaram como a água, fluindo de países com tarifas altas para países com tarifas baixas”, disse Li à DW.
E nenhum país sofreu uma redução maior do que a China, que sofreu as ameaças tarifárias mais altas e voláteis de todas. Entre abril e julho de 2025, os EUA importaram 66 bilhões de dólares a menos da China do que nos anos anteriores.
O Canadá, que enfrentou ameaças de tarifas de 25%, também registrou uma queda significativa de 24 bilhões de dólares. No entanto, o país vizinho dos EUA parece ter compensado essa redução ajustando seu comércio com outros parceiros: no total, as exportações canadenses em 2025 ficaram apenas 1,6 bilhão abaixo das de 2024.
“Os países que mais se beneficiaram do tarifaço foram os ‘países dos 10%’, como Austrália e várias nações da América Latina”, aponta Haishi Li.
Mas algumas nações sujeitas a taxas elevadas também viram fortes aumentos de importações vindas dos EUA: Vietnã, Tailândia e Taiwan enfrentaram algumas das chamadas “tarifas recíprocas” mais altas – 46%, 36% e 34%, respectivamente – e mesmo assim os EUA registraram um acréscimo de 34 bilhões de dólares em importações de Taiwan apenas entre abril e julho.
“Os importadores americanos buscaram países que pudessem servir como substitutos potenciais para a China”, explica o economista da Universidade de Hong Kong. Muitos fabricantes em Taiwan e no Vietnã já mantinham laços fortes com empresas dos EUA, reforçados durante a disputa comercial com a China no primeiro mandato de Trump, o que havia deslocado parte da produção e das cadeias de suprimentos para essas e outras economias asiáticas.
Americanos arcam com maior parte dos custos
Até agora, a medida não trouxe a produção de volta para os Estados Unidos, afirma Alex Durante, economista-sênior do think tank americano Tax Foundation, que analisou o impacto doméstico do tarifaço de Trump. “O último ano foi bastante ruim para a indústria e para o emprego”, diz ele à DW. “Na verdade, os setores que estão crescendo tendem a ser aqueles relativamente protegidos das tarifas, devido a isenções como as concedidas a computadores e produtos ligados à inteligência artificial.”
Mesmo que os importadores americanos tenham mudado a origem de suas compras, o valor total das importações voltou ao normal pouco depois do anúncio do “Dia da Libertação”, em 2 de abril.
Um número que subiu drasticamente foi a arrecadação alfandegária dos EUA. Em 2025, o Tesouro americano recolheu 287 bilhões de dólares em tarifas e impostos, aproximadamente o triplo do registrado em anos anteriores. Dados preliminares indicam que 2026 deve ultrapassar até mesmo esse total.
Essa arrecadação representou cerca de 5% de todos os impostos coletados nos Estados Unidos em 2025. Estudos recentes mostram que as tarifas mais altas têm sido pagas quase integralmente pelos importadores americanos, e não por exportadores estrangeiros.
Como resultado, os consumidores dos EUA acabaram arcando com a maior parte dos custos. “Estimamos que as tarifas custaram, na prática, cerca de mil dólares por domicílio americano em 2025”, afirma Alex Durante, da Tax Foundation. “Esse é o efeito cumulativo de as empresas terem de aumentar preços, reduzir investimentos, cortar empregos ou diminuir salários para se ajustar às tarifas.”
Incerteza assombra exportadores
No cenário internacional, os meses desde agosto de 2025 têm sido marcados por acordos comerciais fechados às pressas – e desfeitos com a mesma rapidez –, além de novas rodadas de ameaças tarifárias direcionadas a países ou grupos específicos de produtos.
O comércio global, afirma Haishi Li, tornou‑se muito mais incerto. “Se você perguntar a acadêmicos, formuladores de políticas nos EUA, a qualquer pessoa, o que vai acontecer neste ano, acredito que ninguém saiba responder”, diz o economista.
O choque mais recente nesse equilíbrio já frágil do sistema tarifário dos EUA veio na forma da decisão da Suprema Corte, em fevereiro, que derrubou a base legal das tarifas do “Dia da Libertação”. Com uma nova alíquota geral de 15% em vigor, e o governo americano aparentemente determinado a encontrar outras formas de aplicar tarifas mais altas novamente, exportadores e importadores ficam tentando adivinhar o que os próximos meses vão trazer.
Para se adaptar a essa incerteza, diz Haishi Li, os governos podem priorizar o apoio a empresas que busquem novos mercados fora dos EUA. “Se conseguirem diversificar suas cadeias de suprimentos, isso as tornará mais resilientes – o que pode ser um ponto positivo no meio de tudo isso”, finaliza.