Um ano após morte de Preta Gil, Brasil começa a implementar novo protocolo de rastreamento câncer colorretal
Rastreio pelo SUS, que entra em vigor agora, no segundo semestre
Há um ano, veio a notícia da morte da cantora Preta Gil, aos 50 anos de idade, de câncer colorretal. O Brasil acompanhava desde 2023 a trajetória de diagnóstico, tratamentos, internações, cirurgias e sintomas, que ela compartilhou publicamente de forma transparente e corajosa, se tornando referência na conscientização sobre a doença.
O caso da artista foi citado inclusive pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante o anúncio de um novo protocolo de rastreio pelo SUS, que entra em vigor agora, no segundo semestre.
Até então, a diretriz era a colonoscopia a partir dos 50 anos de idade, um procedimento complexo, que exige preparo e mobiliza o paciente por um dia inteiro. Na rede privada, o primeiro passo podia ser o exame de sangue oculto nas fezes, mas numa versão mais antiga.
Agora, o SUS adotou o FIT, teste imunológico de sangue oculto nas fezes, que já é usado internacionalmente por ser mais sensível e preciso.
O presidente da Sociedade Brasileira de Coloproctologia, Olival de Oliveira Jr., explicou a adoção do novo exame e a importância da detecção precoce.
"Era feito um teste, ele detectava a cor vermelha, tinha que fazer uma dieta, não ingerir nada que pudesse ter a cor vermelha, tomate, carne, se ele der positivo, você precisa fazer daí um exame de colonoscopia. E o que acontecia é que daí você fazia colonoscopia e não tinha nada. Esse teste novo, ele detecta uma substância que existe dentro do nosso sangue. Não existe possibilidade de ele dar positivo se não tiver realmente sangue. A ideia de se fazer essa prevenção é justamente fazer o diagnóstico precoce de lesões. Se você realmente conseguir um diagnóstico ali no estádio 1, que é o primeiro, você tem mais de 90% de chance de curar esse paciente"
Quem testar positivo no FIT vai ser encaminhado para a colonoscopia. Para o secretário de Atenção Especializada à Saúde do Ministério da Saúde, Mozart Sales, a mudança vai permitir levar o rastreio a regiões onde a colonoscopia hoje é praticamente inacessível.
"Possibilidade de acesso em regiões brasileiras que têm bastante dificuldade, como por exemplo a Amazônia Lagal brasileira, região de fronteira, algumas regiões mais distantes do semiárido, possibilita que isso seja disponibilizado na residência das pessoas, orientada a população para que possa fazer a coleta das fezes e, em seguida, serem recolhidas, exame na casa das pessoas e lavada até a bancada do laboratório, muitas vezes evitando até o deslocamento desses pacientes até a unidade de saúde"
À CBN, o secretário detalhou que o plano de implementação é escalonado.
A ideia é iniciar por 30 macrorregiões de saúde, cerca de 25% do total, com oferta prevista para agosto ou setembro deste ano.
A meta é ambiciosa: dez milhões de pessoas por ano podem ser público-alvo do exame, com adesão inicial estimada entre 20% e 25%. Mozart Sales destacou que o FIT é mais caro, mas defendeu que, na ponta, o SUS economiza.
"Também nós vamos diminuir os gastos governamentais com quimioterápicos, cirurgias de mais longa duração, de maior complexidade, que tem uma morbidade no pós-operatório expressiva, quando você tem que arrancar grande parcela do intestino, fruto da contaminação do câncer em larga escala. Quanto mais cedo nós diagnosticarmos e atuarmos, melhor será para o paciente, para a população e também para o próprio sistema de saúde."
A partir do diagnóstico, o paciente passa por uma série de avaliações para definir o melhor caminho de tratamento.
Para o vice-líder do Centro de Referência de Tumores Colorretais do A.C.Camargo Cancer Center, Virgílio Souza, o avanço mais importante dos últimos anos foi a possibilidade de identificar o perfil molecular de cada tumor para direcionar o paciente à terapia-alvo ou à imunoterapia.
"Com esses avanços terapeuticos, nós temos a individualização terapêutica. Com isso, nós conseguimos ser mais assertivos e ter melhores resultados para os nossos tratamentos. Então, é importante ter esse conhecimento, né? Quando o paciente faz o diagnóstico do câncer colorretal, do câncer de intestino, é importante que, além do dos exames de estadiamento, avaliação prognóstica, é importante que nós também também tenhamos esse conhecimento do perfil molecular, porque isso direcionaria a melhores estratégias de tratamento para os nossos pacientes."
A expectativa do Ministério da Saúde é que, com o novo protocolo, cerca de dois milhões e meio de pessoas façam o exame já no primeiro ano, e que a cada 300 testes, seja identificado um caso de câncer colorretal ainda em fase inicial, quando a chance de cura passa dos 90%.