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Por que o dólar está caindo? Veja o que dizem os economistas e o que esperar para 2026
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Brasil/Mundo

Por que o dólar está caindo? Veja o que dizem os economistas e o que esperar para 2026

Redação com web

A política externa errática de Donald Trump e as tensões geopolíticas recentes enfraqueceram o dólar globalmente, levando a moeda ao menor nível em quatro anos e favorecendo divisas de países emergentes, como o real brasileiro. Com forte entrada de capital estrangeiro, juros elevados no Brasil e bolsas atrativas, o real se valorizou de forma significativa no início de 2026. Especialistas alertam, porém, que o cenário segue volátil e incerto, dependendo das decisões do Federal Reserve, dos desdobramentos políticos nos EUA e do ambiente eleitoral brasileiro, o que pode manter o câmbio oscilando ao longo do ano.

As peripécias e políticas erráticas do presidente Donald Trump mundo afora acertaram o dólar em cheio nos últimos meses. O efeito, entretanto, atingiu um estágio agudo em meio às confusões envolvendo a Venezuela, a Groenlândia e às ações execráveis da polícia de imigração nos Estados Unidos.

Até então, a estratégia de derrubar o dólar em relação a outras moedas importantes do mundo era vista como um movimento deliberado para aumentar a competitividade das exportações americanas no mercado internacional. Sob esse aspecto, seria uma medida saudável ao constituir um pilar para a reindustrialização. Com o movimento dos últimos dias, a perda de valor da moeda tem incomodado boa parte dos americanos.

O efeito das novas encrencas do americano sobre o valor do dólar, antes mesmo de encerrado o primeiro mês de 2026, já é consideravelmente forte. A moeda americana chegou a recuar para o menor patamar em quatro anos na terça-feira, 27, em um índice que mede o desempenho do dólar diante de seis das moedas mais valiosas globalmente.

O DXY compara a moeda americana ao iene (Japão), libra esterlina (Reino Unido), dólar canadense, coroa sueca e franco suíço. Para Trump, apesar disso, o valor da moeda “está ótimo”. “Veja o valor do dólar, os negócios que estamos fazendo. O dólar está indo muito bem”, disse Trump em um evento em Iowa na terça.

Declarações do mandatário americano à parte, os efeitos são notáveis também sobre o real brasileiro. A queda de aproximados 5,5% somente no acumulado de janeiro é quase metade da desvalorização observada no ano todo de 2025. A moeda fechou cotada a R$ 5,25 nesta sexta-feira, 30.

No ano passado, diante do real, a moeda americana perdeu 12,2%, e encerrou 2025 a R$ 5,47 observada a cotação comercial, que reflete o preço real de transações fechadas, informou a B&T XP. Tal baque gera impacto atípico para tomada de decisões não só de investimentos, mas para tocar os negócios – levando à necessidade de desenvolver estratégias para lidar com o mundo em caos constante.

“Quando o DXY cai, moedas emergentes respiram”, conclui Diego Costa, head de câmbio no Norte e Nordeste da B&T XP. Com a turbulência geopolítica, uma consequência direta é o novo rumo do dinheiro de investidores e empresas, sobretudo para os emergentes. O Brasil acaba sendo uma escolha natural.

É um dos países menos instáveis politicamente se observado o universo dos Brics, por exemplo – formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O contexto explica, em parte, porque diante do real a moeda americana perdeu forte valor antes mesmo do primeiro mês do ano chegar ao fim.

Economistas consultados pela IstoÉ Dinheiro avaliam que, especificamente em janeiro, o recuo diante do real é causado basicamente pelos movimentos dos Estados Unidos. Soma-se ao efeito Trump a política de juros japonesa, que desmonta operações chamadas de carry trade, uma prática comum no mercado financeiro.

“Isso é tomar dinheiro barato no Japão, emprestar no resto do mundo e ficar com a diferença de juros”, disse Felipe Sant’Anna, analista da Axia Investing. O desmonte de carry trade também mexe com o dólar, já que os empréstimos tomados no Japão em iene são trocados por dólares, gerando demanda por moeda americana – que pode ser investida em outros mercados com juros altos, como os emergentes.

Se observado o médio prazo, ou seja, o ano de 2025, o dólar caiu diante do real por ajuda de elementos domésticos. O patamar ao final de 2024 era alto, na casa de R$ 6,20, após a divulgação de um pacote fiscal pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva acompanhado de proposta de isentar Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil mensais – projeto que foi aprovado no ano passado pelo Congresso Nacional. Embora fosse uma promessa de campanha, o anúncio causou celeuma culminando em uma corrida por compra de dólares no mercado brasileiro.

“O mundo está confuso”, continua Sant’Anna. Nesse momento, além de renda fixa e bolsas nos emergentes, os ativos considerados seguros, como ouro e prata, ganham atenção. O Brasil é um emergente com empresas sólidas e de grande porte, a exemplo de Petrobras, Vale, bancos, metalúrgicas e grandes varejistas, continua o analista da Axia.

O fluxo, por si só, já pressiona o câmbio por um motivo muito simples, reforçam os economistas: o dinheiro entra no Brasil e o mercado fica “inundado” de dólares. Então o investidor investe o real que adquiriu em renda fixa para ganhar com a Selic, em alto patamar (15% ao ano) e em renda variável. “Os papéis estão baratos”, continua Sant’Anna.

O Ibovespa, principal indicador da bolsa de valores brasileira, a B3, por evidenciar o desempenho das ações mais negociadas no país, ganhou quase 13% no acumulado de janeiro em dólares (9% em reais) até 22 de janeiro. É a quarta posição em um ranking elaborado pela Elos Ayta que comparou 21 índices do mercado financeiro neste início de ano.

Os movimentos de Donald Trump contribuíram para que as bolsas de valores da América Latina apresentassem os melhores desempenhos de 2026 à frente de indicadores do próprio mercado americano, o maior do mundo, como o índice Dow Jones, com alta de 2,75% no mesmo período, S&P e Nasdaq, que avançaram, nessa ordem, 0,99% e 0,83%. O mercado peruano liderou o ranking global com o bom desempenho do índice S&P/BVL General, que já acumula alta de 20,06% em moeda americana.

Se por um lado as empresas estão atraindo capital, dentro delas, a previsibilidade para tomar decisões relacionadas à condução do negócio, o que envolve o fechamento de contratos, fica mais desafiadora em meio ao redesenho de parcerias entre países. Mesmo quem não exporta está sujeito às intempéries do mundo atual, caso, por exemplo, adquira matérias-primas de outros mercados.

O risco é de “mão dupla”, avalia o professor da Fipecafi, Rogério Paulucci Mauad. “Se as ações de Trump elevarem a percepção de risco internacional, devido a tarifas e choque geopolítico, pode ocorrer o que o mercado chama de flight to quality. Ou seja: Trump pode, dependendo do contexto, enfraquecer ou fortalecer o dólar”, disse. O que muda, continua, é a percepção em relação à moeda americana, se “dólar como risco político” ou “dólar como porto seguro”, afirma Mauad. Isso depreciaria o real.

Um cenário atípico como o atual dificulta ainda mais as projeções feitas por economistas para a cotação de moedas. Os olhos estão voltados para as ações do mercado americano, e uma importante é o que poderá ocorrer com a condução da política de juros no país com a troca do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) no próximo mês de maio.

Trump tem pressionado Jeremy Powell, atual dirigente da instituição, a baixar os juros. Há temor de que o Fed perca a independência. “Tudo isso faz com que o dólar fique sem qualquer suporte, e por enquanto sem nenhuma perspectiva de recuperação”, comenta o economista e sócio da Tendências Consultoria, Silvio Campos Neto. A consultoria, por ora, estima dólar a R$ 5,50 ao final de 2026. “Mas é uma tendência bastante incerta. Especialmente em virtude da indefinição da questão político-eleitoral no Brasil”.

O presidente do Federal Reserve dos EUA, Jerome Powell, discursa durante uma coletiva de imprensa após uma reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) sobre a política de taxas de juros, em Washington, D.C., EUA, em 28 de janeiro de 2026. (REUTERS/Jonathan Ernst)

Embora o quadro doméstico por enquanto não esteja afetando significativamente as leituras que levam à decisão de investimento no Brasil, a corrida eleitoral é fator que vai balançar o mercado de câmbio em algum momento de 2026. Com o passar dos meses, o tema vai ganhar temperatura e entrar em cena à medida que as candidaturas se estabeleçam.

“O retrato político-eleitoral é um elemento que tende a gerar mais volatilidade, e até mesmo alguma pressão [ao real], tendo em vista que os investidores vão se lembrar que a situação fiscal aqui não está resolvida”, afirma Campos Neto.

A projeção da Tendências está em linha com a refletida pelos agentes econômicos no mercado brasileiro evidenciada pelo boletim Focus, publicado pelo Banco Central (BC) às segundas-feiras. Não se trata de uma estimativa do BC, mas da expectativa de agentes de mercado recolhida e publicada pela autoridade monetária.

“A cotação do dólar é a variável macroeconômica mais difícil de ser prevista, pois depende de uma série de fatores e acontecimentos internos e externos”, reforça Mauad, da Fipecafi. Os economistas afirmam que, por ora, o dólar está muito mais sensível à política monetária americana e ao ruído fiscal e político nos Estados Unidos – antes que as turbinas se aqueçam no cenário eleitoral brasileiro.

Se o dólar continuar cedendo lá fora, os países emergentes tendem a manter algum suporte. Mas esse movimento continua, ao menos em curto prazo, dependente da mudança no Fed, em maio, e dos movimentos da Casa Branca americana. “Ou seja, dá para ter períodos de real mais forte, como agora, mas com volatilidade elevada e pouca margem para acomodação”, conclui Costa, da B&T XP.

Cenários para o dólar em 2026

O preço do dólar ao final do ano vai depender da persistência do fluxo estrangeiro na B3, em renda fixa e os investimentos diretos, diante do nível de volatilidade global, afirma o professor da Fipecafi, Rogério Paulucci Mauad. Ele estruturou três cenários para a IstoÉ Dinheiro, considerando o segundo como o “provável” para o ano à frente.

No primeiro, o cenário A, que ele considera “benigno”, o fluxo estrangeiro continua entrando na B3 e/ou em renda fixa. Pode se configurar se houver um aumento de IPOs na B3, afirma. Se a volatilidade global estiver comportada, o dólar poderá ficar em patamar mais baixo do que em 2025, mas com prováveis repiques devido ao cenário eleitoral no Brasil. Já o cenário B, que é a “base provável”, tem bastante volatilidade: considera um fluxo estrangeiro oscilante, que ajuda em alguns meses, mas alterna com a realização de lucros (venda de ações).

Neste segundo cenário, eventos gerados pelos Estados Unidos (tarifas, ruídos geopolíticos e dados de inflação e atividade) geram ondas de risk-on (investidores assumem riscos impulsionados por dados econômicos positivos) e risk-off (busca por ativos seguros). Neste caso, o dólar poder ficar “lateralizando”, a R$ 5,20 e R$ 5,50, com volatilidade, alternando janelas de apreciação e períodos de estresse.

No cenário C, de risco global dominante, pode haver choque de tarifas e reprecificação de juros no mercado americano, puxando recursos dos emergentes. Há corrida para o dólar como um ativo seguro devido à percepção de risco global, o que pode pressionar a moeda americana para cima rapidamente, mesmo com um diferencial de juros altos no Brasil.

Redação com web

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