'Parábola torta' da direita não evangeliza os fiéis que confiam no catecismo infalível de Lula
Combate a gastos do governo destinados aos pobres soa como discurso suicida da oposição
Todo mundo está cansado de saber que o presidente Lula age com teimosia quando se trata de destinar recursos do governo aos beneficiários de seus programas sociais, mesmo quando esse tipo de política humanitária produz ou dimensiona gastos orçamentários.
Por sua parte, a sociedade brasileira sabe que o Bolsa Família é a locomotiva dos projetos federais que alcançam as populações carentes, tais como Tarifa Mínima de Energia Elétrica, Programa Gás do Povo, Benefício de Prestação Continuada, Programa Luz Fraterna, Tarifa Social de Água, Programa Leite das Crianças, Telefone Popular, dentre outros.
Os políticos de oposição (bolsonaristas raiz, caule, galho) conhecem mais ou menos a realidade social do Brasil e obviamente têm noção dos efeitos que as ações assistenciais produzem no cotidiano e também nos períodos eleitorais. O próprio Jair Bolsonaro, quando presidente, admitiu isso e ampliou em 2,2 milhões o universo de famílias contempladas com o turbinado e 'temido' Bolsa Família.
A oposição, entretanto, não concebeu ainda uma fórmula prática - sem efeito colateral perverso - de criticar Lula por descumprir os limites de gastos previstos no Orçamento da União. Justo por isso, ao pegar carona no noticiário de cada final e início de ano sobre 'déficit orçamentário federal', os bolsonaristas disparam contra o presidente, mas nunca mencionam o alvo dos 'gastos excessivos'.
É o óbvio ululante, como zombaria Nelson Rodrigues. Atacar Lula por distribuir benefícios com famílias sem renda ou vivendo com renda ínfima, seria o mesmo que dizer aos pobres "não votem em Lula porque ele gasta demais com vocês"...
Daí que a crítica de deputados, senadores e aliados, gratuitos ou remunerados, não surte efeito nenhum, contra o governo, e ainda gera reflexo contraproducente para o bolsonarismo ao insultar os pobres que estudam, leem e sacam a intenção dos críticos.
Exatamente isso.
Como a fixação de rótulo na embalagem identifica o conteúdo do produto, os adversários de Lula criticam por criticar, mas não rotulam, evitando dizer claramente com o quê o governo 'gasta além da conta'. Em vez de irem direto ao assunto, acabam filosofando:
- O déficit orçamentário (eles também adoram chamar de 'rombo') ultrapassa a casa dos cinquenta e cinco bilhões de reais e mostra Lula sem compromisso com o teto de gastos.
É uma ladainha recorrente, mas os hipócritas escondem uma verdade concreta - a de que o 'rombo' das contas públicas cabe dentro dos mais de sessenta bilhões destinados às emendas parlamentares que farão a alegria dos congressistas neste ano de 2026.
Emendas que, o mundo inteiro o sabe, envolvem escandalosos esquemas de corrupção, cabendo mencionar o maior deles - o insidioso orçamento secreto - que acabou por forçar uma intervenção providencial do Poder Judiciário mediante decisão proibitiva do Supremo Tribunal Federal.
O problema, para o bolsonarismo, é que o discurso malandro e oportunista pode ter resposta, e resposta com efeito fulminante em pleno ano da batalha eletiva.
Por exemplo: em que situação ficarão os candidatos oposicionistas e os críticos do governo se o comando estratégico do Planalto decidir traduzir e explicar, durante a campanha eleitoral, que os ataques sem clareza aos 'gastos excessivos' de Lula omitem a pretensão de reduzir a pó os programas sociais que assistem os pobres?
Ou será que, em caso de (improvável) vitória na sucessão deste ano, até por questão de coerência o bolsonarismo não tenderia a levar o novo governo a cortar gastos sociais para evitar déficit? E, em sendo assim, quais setores os cortes atingiriam? Saúde? Educação? Segurança? Infraestrutura? Ou preferencialmente os programas de distribuição de renda?
Precisamente.
Seriam artingidos os vinte milhões de beneficiários do Bolsa Família e outros mais de quarenta milhões de contemplados com os demais programas sociais bancados pelo governo federal, incluindo o novíssimo Gás do Povo, que já começou a acender quinze milhões de fogões pelo Brasil afora.
Agora, o ponto crucial: o que acontecerá se Lula disser, na campanha, que o déficit é resultado dos gastos sociais e que, se chegar ao poder, a oposição poderá acabar com o repasse assistencial às famílias carentes?