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‘Ozempic genérico’: queda de patente inicia corrida bilionária no Brasil
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Brasil/Mundo

‘Ozempic genérico’: queda de patente inicia corrida bilionária no Brasil

Redação com web

A patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e Wegovy, expira no Brasil em março, abrindo espaço para a chegada de genéricos e similares ainda em 2026, o que deve ampliar o consumo dos medicamentos à base de GLP-1. Empresas como Biomm, EMS, União Química e Eurofarma já se preparam para entrar no mercado, enquanto a Anvisa analisa diversos pedidos de registro. A maior concorrência tende a reduzir preços, expandir o número de pacientes e reacender o debate sobre uma eventual inclusão no SUS, embora o alto custo e a demanda elevada ainda sejam obstáculos relevantes.

Em menos de dois meses, no mês de março, encerrará no Brasil a vigência da patente da semaglutida, molécula presente nos medicamentos Ozempic e Wegovy, da Novo Nordisk. Especialistas esperam que medicamentos genéricos ou similares chegarão ao mercado antes do final do ano, aumentando ainda mais o consumo dos agonistas do GLP-1, popularmente apelidados de “canetas emagrecedoras”.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) informa que analisa atualmente 13 pedidos de registro de medicamentos contendo semaglutida. Há ainda outros nove pedidos em análise relacionados a medicamentos com liraglutida, outra substância inicialmente comercializada pela Novo Nordisk, cuja patente caiu no final de 2024.

Ao menos três empresas confirmaram à IstoÉ Dinheiro que já tem planos para comercializar suas próprias versões da semaglutida: a Biomm, EMS e a União Química. Em outra estratégia, a Eurofarma fechou uma parceria com a Novo Nordisk e já comercializa suas próprias versões da semaglutida antes mesmo da queda da patente, com as marcas Extensior e Poviztra.

As empresas brasileiras são apenas parte das possíveis interessadas em explorar este mercado. Também no mês de março, a patente da semaglutida expirará na Índia, abrindo oportunidades para fabricantes como Cipla, Narcofarma e Biocon. “São empresas que tem grande potencial industrial e histórico de entrada em mercados pós-queda de patente”, comenta o analista Gerson Brilhante, da Levante Inside Corp.

Concorrência dificulta reversão da suspensão de patente

A Novo Nordisk já realizou diversas tentativas jurídicas de reverter o fim da patente da semaglutida. A empresa alegava que foi prejudicada pela demora de quase 13 anos da Anvisa para liberar o uso do medicamento. Em dezembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal decidiu, por unanimidade, que o prazo de 20 anos para vencimento da patente conta a partir do momento da submissão para análise do órgão regulatório, mantendo assim a expiração para março de 2026.

“Na prática, é virtualmente impossível que haja alteração dessa decisão por meio da ação judicial que está em curso”, analisa o advogado Guillermo Glassman, sócio da área de Life Sciences do L.O. Baptista. “É lógico que, em termos jurídicos, sempre há espaço para construir novas teses. Mas, na prática, é impossível que isso seja revisto nesse momento.”

Glassman destaca que o fato de concorrentes estarem se movimentando para entrar no mercado dificulta ainda mais qualquer revés jurídico em favor da Novo Nordisk.

Registro em andamento e investimentos confirmados

Ao menos uma das empresas consultadas pela IstoÉ Dinheiro afirma que já submeteu à Anvisa a solicitação de registro de uma versão genérica da semaglutida: a Biomm afirma que “estará apta a disponibilizar o medicamento ao mercado após a obtenção da aprovação regulatória”. O medicamento será produzido em uma planta industrial já em atividade em Nova Lima (MG), onde já fabrica insulina humana e insulina glargina. O investimento no espaço foi de R$ 800 milhões.

A EMS também confirmou investimentos robustos: mais de R$ 1 bilhão para sua plataforma própria com fábrica, focada na produção de liraglutida e semaglutida.

Mais opções e mais consumidores

Relatório publicado em 7 de janeiro pelo Itaú BBA aponta que remédios genéricos e similares dos agonistas do GLP-1 fabricados pela dinamarquesa Novo Nordisk podem movimentar R$ 8,4 bilhões já em 2027. Para além da semaglutida, a dinamarquesa fabrica também a liraglutida, cuja patente caiu no final de 2024.

Em agosto de 2025, a EMS disponibilizou suas versões nacionais mais baratas do medicamento. O lançamento oferece um cenário análogo para analisar a possível entrada de novas opções no mercado. Logo no mês de lançamento, a venda total de liraglutida cresceu 154,5% no país, com as versões da EMS representando mais da metade (55,7%) das vendas.

Liruz e Olire, versões da liraglutida da EMS

Liruz e Olire, versões da liraglutida da EMS (Crédito:Divulgação)

Líder de Market Insights da Close Up International, empresa responsável por levantar os dados sobre a liraglutida, Filipe Campos afirma que não houve uma canibalização do mercado da Novo Nordisk. Os lançamentos da EMS na verdade aumentaram o número de unidades vendidas e de médicos prescritores.

“Portanto, para a quebra de patente da Semaglutida, estima-se que o número de pacientes usuários das medicações seja ampliado”, diz.

Vai ter ‘Ozempic genérico’ no SUS?

Com o barateamento dos medicamentos, abre-se a possibilidade de uma eventual inclusão da semaglutida no Sistema Único de Saúde (SUS). O Ministério da Saúde afirmou que solicitou à Anvisa prioridade no registro de medicamentos compostos pelos princípios ativos semaglutida e liraglutida. “A entrada de novos medicamentos genéricos no mercado e aumento da concorrência deve reduzir os preços de forma significativa”, afirma o órgão.

Questionado pela IstoÉ Dinheiro, o Ministério da Saúde afirma que “realiza o monitoramento constante do panorama de propriedade intelectual de fármacos essenciais, como antineoplásicos e biotecnológicos, para subsidiar o planejamento de compras e as estratégias de incorporação tecnológica”.

Em 2025, uma análise para possível inclusão do Ozempic na saúde pública chegou a uma negativa pois o o impacto orçamentário foi avaliado em mais de R$ 8 bilhões anuais. O valor representaria quase o dobro do orçamento total do programa Farmácia Popular no ano.

Para serem incluídas no sistema público, os novos medicamentos deverão ser substancialmente mais baratos. A liraglutida da EMS, por exemplo, não alcançou a diferença de preço de 35% em relação ao medicamento de referência necessária para ser classificada como genérico. Com preços acima de R$ 600, ainda estão longe de uma plena acessibilidade para a população e o sistema público.

Professor da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo), Gonzalo Vecina Neto afirma que, mesmo em versões genéricas, o medicamento enfrentaria outro entrave no SUS: a alta demanda. Segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2025, cerca de 31% da população adulta brasileira vive com obesidade.

“O SUS deverá reservar a utilização desses medicamentos para determinado padrão de paciente com um risco maior. Por exemplo, os pacientes com obesidade mórbida, que não forem candidatos a fazer cirurgia bariátrica”, afirma Vecina. “Isso deverá ser uma uma discussão importante que o Ministério vai travar com a com a sociedade, para estabelecer um protocolo de quem vai pode receber.”

Semaglutida é um dos agonistas do GLP-1 mais populares no país

Comercializada pela Novo Nordisk no Brasil desde 2019, a semaglutida contava com mais de 90% do mercado de agonistas do GLP-1 até maio do ano passado. A chegada do Mounjaro mudou este cenário, com o estudo da Close Up Internacional mostrando ambos com mais de 40% de market share em agosto de 2025.

A classe dos medicamentos análogos do GLP-1 (Peptídeo Semelhante ao Glucagon tipo 1) imita um hormônio que o corpo produz naturalmente no intestino após as refeições, atuando em diferentes órgãos para regular o metabolismo e o peso. Como resultado, diminui o nível de glicose e aumenta a sensação de saciedade.

Originalmente aprovada para o tratamento do diabetes tipo 2, a semaglutida tornou-se mundialmente conhecida por sua eficácia no tratamento da obesidade e do sobrepeso. A Novo Nordisk comercializa o medicamento sob duas marcas, uma com bula focada no diabetes (Ozempic) e outra direcionada para o sobrepeso (Wegovy).

Outros agonistas do GLP-1 populares no país são:

  • Liraglutida, comercializada pela Novo Nordisk com as marcas Saxenda e Victoza e pela EMS com as marcas Olire e Lirux;
  • Dulaglutida, comercializada pela norte-americana Eli Lilly com a marca Trulicity;
  • Tirzepatida, comercializada pela norte-americana Eli Lilly com a marca Mounjaro.

Segundo relatório do Itaú BBA, o mercado de agonistas do GLP-1 movimentou em 2025 cerca de R$ 10 bilhões, o que corresponde a aproximadamente 4% do tamanho total do mercado de varejo farmacêutico no Brasil.

A popularidade destes medicamentos gerou uma corrida por novas criações na mesma linha. A chinesa Hangzhou Sciwind Biosciences trabalha neste momento em uma molécula própria, a ecnoglutida. Já a também chinesa Innovent Biologics desenvolve em parceria com a Eli Lilly outra substância, a Mazdutide.

Redação com web

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