O que se sabe sobre o caso de estupro coletivo de adolescente de 17 anos no Rio
A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga um caso de estupro coletivo contra uma adolescente de 17 anos ocorrido em Copacabana, na Zona Sul do Rio, em 31 de janeiro. Dois suspeitos se apresentaram à polícia, enquanto outros seguem foragidos; quatro adultos já se tornaram réus, e um adolescente responde na Vara da Infância e Juventude. O caso gerou forte repercussão e clima de insegurança no bairro. Um dos investigados é atleta do Serrano Football Club, que o afastou, e o pai de outro suspeito, então subsecretário estadual, foi exonerado do cargo pelo governo do estado.
A Polícia Civil do Rio de Janeiro ainda procura três dos cinco envolvidos no caso de estupro coletivo ocorrido em Coapacanba, zona sul da capital, contra uma adolescente de 17 anos. O caso ocorreu no dia 31 de janeiro deste ano, mas só foi divulgado um mês depois. Na manhã desta terça-feira, 3, Mattheus Veríssimo Zoel Martins, de 19 anos, se apresentou à 12ª DP (Copacabana), onde o crime é investigado. O segundo suspeito, João Gabriel Xavier Bertho, 19, se apresentou horas depois na 10ª DP (Botafogo), também na zona sul.
Em nota divulga à imprensa, a defesa de João Gabriel Xavier Bertho negou “com veemência” a ocorrência de estupro e emboscada. Afirmou que ele não tem nenhum histórico de violência e que, até o momento, não teve oportunidade de ser ouvido para se defender.
Outros dois homens, Bruno Felipe dos Santos Allegretti e Vitor Hugo Oliveira Simonin, ambos de 18 anos, foram indiciados por estupro coletivo qualificado e cárcere privado. Ambos seguem foragidos. Um adolescente de 17 anos, que já havia mantido relacionamento com a vítima, é apontado pela polícia como responsável por ter atraído a jovem ao local do crime.
A Justiça aceitou a denúncia do Ministério Público e os quatro adultos se tornaram réus pelos crimes de estrupro coletivo qualificado – já que a vítima é menor de idade – e por cárcere privado. Os dois jovens que se apresentaram não prestaram depoimento e têm o direito de só falar em juízo, por já terem se tornado réus.
Já o adolescente responde ao processo na Vara da Infância e Juventude por crimes análogos aos dos quatro maiores de idade. A audiência de instrução do menor está marcada para o dia 31 de março.
A polícia informou que começou a investigar outras denuncias de estupro envolvendo alguns dos jovens do mesmo grupo. Após a repercussão deste caso, dois novos boletins de ocorrência foram registrados nesta terça-feira, 3. Um dos crimes teria sido cometido em 2023. Em outro caso recente, de outubro do ano passado, uma aluna do Colégio Pedro II, onde os jovens estudavam, também teria sido vítima do grupo. A polícia pretende avançar com as investigações ainda nesta semana.
Moradores comentam clima de insegurança após divulgação do caso
Em Copacabana, o clima entre os moradores é de perplexidade com a barbaridade do crime. Em conversa com IstoÉ, uma moradora antiga de do bairro, que preferiu não se identificar, fez um desabafo sobre a insegurança e a vulnerabilidade dos jovens.
“Ela (a vítima) tem 17 anos, eu tenho amigas que têm filhas na idade dela, e está todo mundo apavorado. Eu não tenho filhas, mas o que ‘as nossas meninas’, que transitam aqui pelo bairro, que a gente vê, indo a praia, namorando esses meninos… o que vai ser da gente? Todo dia um caso na TV. Hoje foi aqui em Copacabana. E, sinceramente, eu me pergunto, se tivesse sido numa favela, num bairro da zona oeste, da zona norte, se teria o mesmo alcance. Mas, aqui a gente está em Copacabana, então eu acho que é por isso que esse caso está tendo tanta repercussão”, disse ela, que se questionou sobre os exemplos que os envolvidos no crime receberam ao longo da vida.
“Mas, é um caso bárbaro. Tem filha de amiga minha que conhece a amiga da menina, então me dá uma dor no coração de pensar. E o que esses meninos, o que os pais desses meninos estão incentivando? O que eles consomem, como eles vêem a mulher? Vêem a mulher como um objeto, um doce que come e joga fora a casca? A mulher é um ser humano. Tem que ser bem tratada, eu espero que essa menina seja bem acolhida, porque me dá pavor. Eu tenho medo de passar por isso, agora fico com medo das filhas das minhas amigas”, lamentou.
Assustada com os comentários e conversas que escutou no bairro após repercussão do caso, uma outra moradora, que tem Copacabana como seu local de trabalho, destacou a importância da imposição de limites aos jovens.
“A mulher não está segura em lugar nenhum, seja em Copacabana, um dos bairros mais conhecidos do mundo, seja em qualquer lugar, em qualquer idade.. a mulher não está segura. Me assusta profundamente meninos novos, de 18, 19 anos cometendo crimes. Porque isso, sim, tem a ver com educação, a falta de limites que a gente vê hoje”, observou.
“Eu fico muito assustada, porque quanto mais esclarecimento a população tem, quanto mais esclarecimento a mulher tem, me parece que está sendo cada vez mais assediada, cada vez mais estuprada, os índices de feminicídio são tão altos. E esses meninos tão novos… espero que sejam punidos, senão vão crescer acreditando que tudo é possível. O que falta é limite”, disse.
Subsecretário de Direitos Humanos, pai de um dos suspeitos, é exonerado
Vitor Hugo Oliveira Simonin, 18 anos, um dos suspeitos de estupro coletivo contra uma menor de 17 anos, é filho de um subsecretário do governo do Rio de Janeiro. José Carlos Costa Simonin é subsecretário de Governança, Compliance e Gestão Administrativa, órgão vinculado à Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do governo de Cláudio Costa (PL).
José Carlos Simonin foi exonerado nesta quarta-feira, 3. Em nota, a pasta vinculada à Secretaria afirmou que a exoneração foi adotada no âmbito administrativo, “visando resguardar a integridade institucional e assegurar a condução responsável dos fatos noticiados”. “As investigações seguem sob responsabilidade das autoridades competentes. A Pasta reafirma seu compromisso com a dignidade humana e a preservação da vida”, continua o comunicado.
Em nota divulgada em sua página no Instagram, a secretária Rosangela Gomes diz ter tomado conhecimento “das graves denúncias envolvendo o filho do subsecretário Simonin. Recebo essas informações com profunda indignação e tristeza”. Ela reforçou que a gestão é pautada pela defesa intransigente dos direitos das mulheres e pelo combate à violência e que “jamais compactuaria com qualquer ato que fira a dignidade feminina ou a integridade de nossas jovens”. Ainda segundo a nota, através do Governo do Estado do RJ, a Secretaria da Mulher já está prestando todo apoio jurídico e psicológico à adolescente e sua família.
Clube afasta suspeito após denúncia de estupro
João Gabriel Bertho, suspeito de participar de estupro coletivo, é jogador do Serrano Football Club (Serrano-RJ) e já disputou competições organizadas pela Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj).
Em nota oficial publicada no Instagram, o clube informou que tomou conhecimento do indiciamento e decidiu afastar o suspeito. “Entendemos a gravidade da situação e reforçamos que o clube repudia veementemente qualquer forma de assédio ou violência. O atleta está afastado e seu contrato suspenso. Estamos acompanhando de perto o desenrolar do caso e os desdobramentos da investigação”, diz o comunicado.
Como o crime ocorreu, segundo as investigações
Segundo o inquérito da 12ª DP (Copacabana), a vítima foi convidada por um adolescente, colega de escola, para ir ao apartamento de um amigo dele, na noite de 31 de janeiro, em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro. O rapaz pediu que ela levasse uma amiga, mas a adolescente foi sozinha.
No elevador o jovem avisou que mais amigos estariam no local, mas ela recusou qualquer relação com eles. No apartamento, ela foi levada para o quarto pelo rapaz e, quando mantinham relação sexual, os outros quatro entraram no local. Ela pediu que não fosse tocada, mas os rapazes tiraram a roupa e todos a violentaram.
O adolescente que convidou a vítima, e que não teve a identidade divulgada por ser menor de idade, também é investigado por ato infracional análogo ao crime de estupro. O procedimento dele foi desmembrado para a Vara da Infância e Juventude.
*Com informações do Estadão Conteúdo