O que está sob questão no desfile em homenagem a Lula na Sapucaí
O samba-enredo da Acadêmicos de Niterói que homenageia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva gerou controvérsia política e jurídica em ano eleitoral, com acusações da oposição de propaganda antecipada e uso indevido de recursos públicos. A Justiça rejeitou pedidos para suspender o desfile, e o Tribunal Superior Eleitoral decidiu que não é possível presumir irregularidade antes do evento, embora tenha alertado que excessos poderão ser punidos posteriormente. Especialistas afirmam que só haverá campanha antecipada se houver pedido explícito de votos ou abuso de poder político durante a apresentação.
O samba-enredo da Acadêmicos de Niterói que homenageará o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) neste domingo, 15, colocou o Carnaval do Rio de Janeiro no centro de uma disputa política e jurídica em ano eleitoral. Parlamentares de oposição acusam a apresentação de promover “propaganda eleitoral antecipada” a favor do petista, com agravante de utilização de recursos públicos.
O enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil” exalta a trajetória pessoal e política do presidente. O último carro alegórico, batizado de “Amigos de Lula”, prevê a presença da primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, como destaque na avenida. Os demais ministros receberam orientação do governo para que não participem do desfile a fim de evitar desgastes.
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Presenças no desfile e contenção do governo
A sinalização de participação de integrantes do governo ampliou as críticas à realização do evento. Inicialmente, a presença de ministros foi cogitada e a organização da escola chegou a solicitar medidas para confecção de fantasia. A IstoÉ contatou a Secom e a assessoria da Acadêmicos de Niterói a fim de acessar a lista completa das autoridades convidadas, mas não obteve retorno até o momento da publicação.
Após a repercussão negativa, o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, orientou ministros a não participarem do desfile na avenida. A diretriz buscou reduzir o desgaste político e evitar o entendimento de uso institucional do Carnaval. A orientação manteve a possibilidade de autoridades acompanharem os desfiles em camarotes, como público, sem protagonismo ou vínculo direto com o enredo.
A única ministra que ainda sinalizava possibilidade de desfilar era Anielle Franco (Igualdade Racial), que seria uma “exceção” à regra devido às raízes cariocas e amizade com Janja. No entanto, a ministra informou à IstoÉ na manhã de sexta-feira, 13, – dois dias antes do evento – que desistiu de participar.
Críticas da oposição e judicialização
A oposição passou a sustentar que a homenagem a um presidente em exercício, em ano eleitoral, poderia configurar propaganda antecipada, ainda que inserida em um contexto cultural. A partir dessa leitura, três frentes foram abertas quase simultaneamente.
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) anunciou uma ação popular, questionando a legalidade da homenagem e eventual desvio de finalidade no uso de recursos públicos. A Justiça Federal do Distrito Federal, porém, rejeitou o movimento da parlamentar alegando que uma ação popular não seria o instrumento adequado para tratar o caso.
O deputado Kim Kataguiri (União-SP) acionou o Tribunal de Contas da União (TCU) e a Embratur, pedindo apuração sobre possível promoção institucional do governo em um evento de grande visibilidade nacional e internacional. Inicialmente, o TCU chegou a recomendar que o repasse de R$ 1 milhão fosse suspenso, mas a verba foi mantida.
Já o Partido Novo e o Missão ingressaram com representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), solicitando a suspensão do desfile sob a alegação de propaganda eleitoral antecipada.
Resposta da Justiça Eleitoral
O Tribunal de Contas da União (TCU) foi a primeira instância a se manifestar. Em uma análise inicial, técnicos recomendaram cautela e chegaram a defender a suspensão de repasses federais relacionados ao desfile. Dias depois, o tribunal recuou e avaliou que não havia base jurídica, naquele momento, para barrar recursos destinados a um evento cultural – uma vez que ainda não havia comprovação de uso eleitoral das verbas.
No Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a relatora Estela Aranha votou pela rejeição da ação apresentada pelo Partido Novo. A Corte entendeu que não é possível presumir irregularidade antes da realização do desfile, já que o conteúdo final ainda não ocorreu. O tribunal, no entanto, fez uma ressalva explícita. A decisão não funciona como salvo-conduto. Caso haja excessos, o conteúdo do desfile poderá ser analisado posteriormente, com eventual responsabilização.
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O que dizem os especialistas
Segundo o doutor em Direito Constitucional pela USP e professor da FSA Antonio Carlos de Freitas Jr, a mera produção de um samba enredo sobre um candidato não configura campanha antecipada.
Para comprovar uma possível campanha antecipada é preciso que a apresentação inclua pedido de voto. O que precisa ser analisado é se esse samba-enredo “foi feito em razão do poder politico do candidato” ou se prejudica a “igualdade entre candidatos” na disputa de 2026. Caso as situações sejam constatadas, o desfile pode configurar abuso de poder politico, sendo passível de sanções.
Com o desfile mantido, a controvérsia deixa de ser preventiva e passa a depender do que efetivamente ocorrerá na avenida. “Se começarem a gritar na avenida ‘vote em Lula, vote em Lula’, ou se o presidente subir no carro alegórico e gritar ‘vote em mim’, aí sim será campanha antecipada.”, finalizou Antonio Carlos à IstoÉ.