Ibovespa tomba e dólar dispara com Flávio Bolsonaro pré-candidato; veja cotações
A confirmação de Flávio Bolsonaro como escolhido do ex-presidente Jair Bolsonaro para disputar a Presidência em 2026 provocou forte reação negativa do mercado: o Ibovespa despencou mais de 4% e o dólar subiu mais de 2%. Investidores veem Flávio como um candidato mais fraco e menos previsível que Tarcísio de Freitas, favorito do mercado, o que aumenta a percepção de risco, incerteza fiscal e polarização política. Analistas dizem que a notícia divide a oposição, reduz a clareza sobre reformas e acende alerta sobre possível instabilidade prolongada, pressionando juros, câmbio e ações.
A confirmação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para ser candidato à Presidência na eleição de 2026 foi mal recebida pelo mercado financeiro, o que fez o dólar disparar e a bolsa brasileira afundar, interrompendo a sequência de recordes.
O Ibovespa perdeu o patamar dos 160 mil pontos após ter ultrapassado pela primeira vez os 165 mil pontos mais cedo. O índice de referência do mercado acionário brasileiro caiu 4,31%, a 157.369,36 pontos pontos, após avançar a 165.035,97 na máxima do dia, renovando topo histórico. Foi a maior queda diária desde 22 de fevereiro de 2021 (-4,87%).
Com tal desempenho, a primeira semana de dezembro acabou com queda acumulada de 1,07%, ante acréscimo de mais de 3% até a véspera. No ano, o Ibovespa ainda sobe 30,83%.
O dólar à vista fechou aos R$ 5,4346, com alta de 2,34%. No ano, porém, a divisa acumula perdas de 12,05%. Veja cotações.
O azedume dos mercados no Brasil ocorre a despeito de em Nova York os índices de ações estarem em alta. Em meio à forte alta do dólar ante o real, a taxa do DI para janeiro de 2028 estava em 13,185% no fim da tarde, em alta de 46 pontos-base ante o ajuste de 12,726% da sessão anterior. A taxa para janeiro de 2032 marcava 13,485%, com elevação de 51 pontos-base ante o ajuste de 12,971%.
Por que o mercado reagiu mal?
A visão do mercado é de que o nome de Flávio inviabiliza a candidatura do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) — o favorito dos investidores para a disputa com Lula.
“O mercado vê Flávio como um candidato mais fraco que Tarcísio na disputa com Lula. Além disso, o possível governo Flávio não agrada tanto, porque a pauta parece errática”, avaliou Laís Costa, analista da Empiricus Research.
De acordo com o especialista em renda variável da Manchester Investimentos Rubens Cittadin Neto, a notícia foi mal vista pelo mercado porque divide a oposição. “O mercado é apolítico, o que ele precifica é taxa de juros e o quanto isso afeta os ativos de risco. Hoje, o juro restritivo de 15% se deve ao fiscal mais expansionista. E a expectativa é a de que a oposição traga um fiscal com mais austeridade”, afirmou.
Segundo o estrategista-chefe da Davos Investimentos, Ricardo Pompermaier, a leitura é de que o processo eleitoral pode ficar ainda mais polarizado e com menos clareza sobre a trajetória fiscal e o compromisso com reformas.
Fábio Murad, CEO da SpaceMoney e especialista em educação financeira, destaca que a notícia acendeu um alerta vermelho no mercado, que esperava alguma moderação no discurso da direita para facilitar alianças para as eleições.
“O movimento reflete um aumento imediato de risco Brasil, sobretudo porque a eleição ainda está distante, e o país segue enfrentando desafios fiscais e econômicos muito significativos. O episódio mostra como a política local segue sendo um dos principais vetores da volatilidade aqui nos ativos brasileiros. E a percepção de que o país pode mergulhar novamente uma polarização sem diálogo afasta os investidores, pressiona o câmbio e derruba o preço dos ativos”, diz Murad.
Para Erich Decat, head do time de análise política da corretora Warren Investimentos, a eventual candidatura de Flávio Bolsonaro ainda precisa decantar antes de ser tratada como um movimento concreto e deve ser vista como uma “demonstração de sobrevivência política” do clã Bolsonaro.
“Trata-se de um recado direto ao Centrão, que vinha ocupando o vácuo deixado pelo enfraquecimento do ex-presidente e avançando na articulação de uma candidatura própria de centro-direita, com Tarcísio de Freitas despontando como principal nome”, avaliou Decat. “É, portanto, menos sobre lançar Flávio agora e mais sobre marcar território, preservar relevância e evitar que outros atores consolidem hegemonia antes da hora”.
E os juros no Brasil e nos EUA?
Apesar da forte elevação dos prêmios em função das notícias, a curva a termo brasileira seguia precificando durante a tarde em cerca de 80% a probabilidade de o Banco Central iniciar o ciclo de cortes da Selic em janeiro. Atualmente a Selic está em 15% ao ano.
No exterior, os rendimentos dos Treasuries se firmaram em alta durante a tarde, com investidores consolidando posições antes da decisão sobre juros do Federal Reserve, na próxima semana. Às 16h38, o rendimento do Treasury de dez anos –referência global para decisões de investimento– subia 3 pontos-base, a 4,139%.
No início da tarde, o Departamento do Comércio dos EUA informou que o índice de preços PCE subiu 0,3% em setembro, mesma taxa de agosto, acumulando alta de 2,8% em 12 meses. O núcleo do PCE, que exclui alimentos e energia, teve alta de 0,2% em setembro, mesma taxa de agosto e em linha com a projeção dos economistas ouvidos pela Reuters.
Neste cenário, os ativos seguiam precificando 87,2% de probabilidade de corte de 25 pontos-base dos juros pelo Fed na próxima semana, contra 12,8% de chance de manutenção na faixa de 3,75% a 4%, conforme a Ferramenta CME FedWatch.
Com informações da Reuters