Fernanda Montenegro, perto dos 97, reflete sobre a vida e a morte em documentário
Sem a presença de Fernanda, que estava confirmada, mas teve uma indisposição, a première foi uma celebração de sua vida e também uma longa contemplação da morte, feita pela própria atriz de 96 anos em cena
Exibido no Festival do Rio, o documentário dirigido por Pedro Waddington reúne imagens raras, bastidores de gravações e reflexões da atriz sobre a vida, a carreira e o envelhecimento. Fernanda não compareceu à estreia por causa de uma indisposição
"Narra como se eu já não estivesse mais aqui", diz Fernanda Montenegro à câmera de Pedro Waddington nos segundos iniciais do documentário que oferece uma janela para os anos mais recentes da atriz.
Sob aplausos, o filme dirigido pelo enteado de Fernanda Torres, que acaba de lançar também "Precisamos Falar" e alguns episódios da série "Emergência 53", fez sua estreia no Festival do Rio nesta quinta-feira (8).
Sem a presença de Fernanda, que estava confirmada, mas teve uma indisposição, a première foi uma celebração de sua vida e também uma longa contemplação da morte, feita pela própria atriz de 96 anos em cena.
"Fernanda", como o documentário foi batizado, dispensa as chamadas "cabeças falantes" — entrevistas do biografado e daqueles próximos a ele —, preferindo gravações recentes de bastidores, imagens de arquivo e a narração em off da atriz.
São muito presentes os bastidores de seus dois últimos filmes, "Vitória" e "Velhos Bandidos", em gravações sorrateiras, feitas por Waddington entre um take e outro, que capturam Fernanda dando palpites nos projetos ou, com frequência, refletindo sobre o envelhecimento, a morte de muitos colegas e a beleza da profissão que escolheu.
São divertidas as cenas em que ela, a contragosto, é gravada em conversa com Ary Fontoura, enquanto espera para entrar em cena em "Velhos Bandidos".
Eles falam sobre como as canções de antigamente eram mais bonitas, sobre os papéis marcantes do passado e sobre o círculo de amizades que se enxuga cada vez mais.
Muitos desses amigos são apresentados como parte do elenco nos créditos iniciais de "Fernanda". Paulo Autran, Paulo José, Gianfrancesco Guarnieri, Nelson Rodrigues e muitos outros protagonizam imagens de um acervo pessoal riquíssimo, que ajuda a narrar, para além da carreira da biografada, anos áureos da dramaturgia no país.
Fernando, Claudio e Fernanda Torres também são apresentados nos créditos, vivendo os personagens marido, filho e filha. Sem obedecer a uma cronologia, o documentário se preocupa em reconstruir as memórias de Fernanda Montenegro na ordem e da maneira que mais convêm à atriz.
Também são ricos os registros de bastidores de "Casa de Areia", filme de 2005 em que atuou ao lado da filha e sob a direção do genro, Andrucha Waddington — pai de Pedro Waddington —, e da leitura de Simone de Beauvoir, feita no ano retrasado para uma multidão reunida no Parque Ibirapuera, em São Paulo.
Com eles, alternam-se registros históricos das dezenas de peças, filmes e novelas estrelados pela grande dama da dramaturgia brasileira. As imagens do passado vão se intercalando à voz atual de Fernanda, que se repete ao dizer que o registro documental pode ser sua última aparição nas telas.
Mesmo ausente da sessão, Fernanda Montenegro arrancou risadas e lágrimas da plateia e compartilhou ensinamentos de uma vida prestes a completar 97 anos, no próximo dia 16. A importância da memória, fica claro, é um tema que ocupou os pensamentos da atriz ao longo de toda a vida.
"Quanto mais a gente vive, mais a gente entende a importância de guardar as imagens dos nossos grandes artistas", disse Ilda Santiago, diretora do Festival do Rio, antes da sessão no histórico Cine Odeon, fazendo coro à mensagem deixada pela biografada.
"Isso que a gente vai ver na tela vai ficar conosco por muitos anos, é algo que vai nos aquecer e nos alimentar por muitos anos e gerações."
Mais do que um registro histórico, "Fernanda" é uma aula de sabedoria, segundo o diretor, que apresentou o trabalho antes da exibição.
"Foi muito bonito, muito feliz acompanhar uma mulher com tanta sabedoria", disse Pedro.
"A Fernanda fala muito de um cinema não glamorizado, sem tapete vermelho. Ela gosta é de jogar, e faz isso ainda hoje muito lindamente. É de um vigor, de uma presença. Uma coisa viva."
"Fernanda" ainda tem sessões no Festival do Rio e chega ao streaming Universal+ em dezembro.