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‘Estado falhou’, diz especialista sobre vítimas com medidas protetivas em SP
Divulgação
Polícia

‘Estado falhou’, diz especialista sobre vítimas com medidas protetivas em SP

Redação com web

Os casos de Cibelle Monteiro Alves e Júlia Gabriela Bravin Trovão, assassinadas por ex-companheiros mesmo com medidas protetivas, evidenciam falhas na proteção às mulheres, segundo Maíra Recchia, da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção São Paulo. Dados apontam aumento no descumprimento dessas medidas em São Paulo e crescimento dos casos de feminicídio no país, que registrou 1.560 mortes em 2025, com destaque para São Paulo, Minas Gerais e Bahia. Especialistas defendem monitoramento mais rigoroso dos agressores e políticas públicas mais eficazes para prevenir novas tragédias.

Cibelle Monteiro Alves, que era funcionária da joalheria Vivara, no Shopping Golden Square, em São Bernardo do Campo, e Júlia Gabriela Bravin Trovão, de Botucatu (SP), compartilham algo trágico em comum: ambas foram assassinadas por seus ex-companheiros, mesmo possuindo medidas protetivas. Para Maíra Recchia, presidente da Comissão Mulheres Advogadas da OAB-SP, o “Estado falhou” na proteção às vítimas.

No dia 25 de fevereiro, o ex-namorado de Cibelle entrou na loja portando uma faca e uma arma de airsoft, ferindo- a gravemente no pescoço. Equipes das polícias Militar e Civil foram ao local para negociar com o suspeito, que mantinha a vítima como refém. Ao apontar a arma contra agentes do GOE (Grupo de Operações Especiais), o homem foi baleado, socorrido e encaminhado a um hospital da região. A funcionária, no entanto, não resistiu aos ferimentos. Segundo a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública), ela já havia registrado boletins de ocorrência contra o agressor e possuía uma medida protetiva de urgência.

Quatro dias antes, em 21 de fevereiro, Júlia Gabriela Bravin Trovão, de 29 anos, foi alvejada pelo ex-companheiro Diego Sansalone, de 38. Ao longo dos últimos cinco anos, a vítima havia registrado 10 boletins de ocorrência contra ele por ameaça, injúria e descumprimento de guarda. Além disso, solicitou três medidas protetivas, das quais uma foi negada.

No momento do ataque, Júlia e seu atual companheiro, Diego Felipe Corrêa da Silva, foram baleados dentro de um carro. Silva morreu no local; Júlia foi socorrida em estado grave, mas faleceu no dia 24.

As medidas protetivas funcionam?

Dados da Polícia Civil revelam que o número de medidas protetivas descumpridas aumentou em todo o estado de São Paulo: na comparação entre 2024 e 2025, o índice subiu de 19.615 para 21.180 casos.

Em entrevista à IstoÉ, Maíra Recchia explicou que a medida protetiva, implementada em 2006 pela Lei Maria da Penha, visa salvaguardar a mulher contra violências física, psicológica, moral, financeira e sexual. Para acioná-la, a vítima deve ir a uma delegacia e solicitar a proteção de urgência. A partir daí, impõe-se uma série de limites ao suspeito, como a proibição de aproximação e de qualquer tipo de contato.

Indagada sobre a solicitação de medida protetiva negada a Júlia, a especialista afirmou que isso representa uma “reprodução da violência”, pois, para ela, a estrutura machista da sociedade reflete-se nos espaços de tomada de decisão.

Para Recchia, o monitoramento dos agressores por meio de tornozeleiras eletrônicas seria uma maneira de evitar o descumprimento das medidas protetivas. A advogada ainda defendeu que a concessão do mecanismo, sem ferramentas estatais eficazes e políticas públicas, é insuficiente: “Não adianta apenas ter 40 anos de reclusão, porque isso não vai resolver a proteção da vítima”, afirmou, referindo-se à Lei 14.994/24, que elevou a penalidade para o feminicídio.

Brasil registra aumento nos casos de feminicídio

Os números reforçam a urgência do debate. O 19° Anuário Brasileiro de Segurança Pública, lançado em julho de 2025 com dados de 2024, aponta que 29 mulheres foram vítimas de lesão corporal dolosa por hora no contexto doméstico. Embora o aumento de feminicídios entre 2023 e 2024 tenha sido de 0,7% (1.492 mortes), o índice é recorde na série histórica iniciada em 2015. Já as tentativas de feminicídio cresceram 19% no mesmo período, totalizando 3.870 registros.

Dados do Ministério da Justiça indicou que, entre janeiro e dezembro de 2025, foram registrados 1.560 feminicídios no país — uma média de quatro vítimas por dia. O estado de São Paulo liderou as ocorrências com 270 casos, seguido por Minas Gerais (177) e Bahia (102).

No mesmo ano, a capital paulista também atingiu seu maior número de casos desde 2015. Segundo os indicadores disponibilizados pela SSP-SP, o estado contabilizou um pico de 37 ocorrências de feminicídio apenas no mês de dezembro de 2025.

Redação com web

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