‘Emenda Master’ e mesada de R$ 300 mil: as suspeitas que levaram a PF a Ciro Nogueira
O senador Ciro Nogueira (PI), presidente do Progressistas e ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro (PL), foi alvo de um mandado de busca e apreensão da Polícia Federal nesta quinta-feira, 7, na quinta fase da Operação Compliance Zero.
Outros nove mandados de busca e apreensão e um de prisão temporária foram cumpridos como parte das investigações do escândalo do Banco Master.
Conforme a decisão judicial do ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), que autorizou a operação, Nogueira tornou-se o “destinatário central das vantagens indevidas” proporcionadas pelo Master em troca de atuar a favor do banco e de seu proprietário, Daniel Vorcaro, no Senado.
Neste texto, a IstoÉ relata as principais suspeitas levantadas pelos policiais contra o político.
Emenda Master
- Em agosto de 2024, Nogueira apresentou uma emenda à PEC (Proposta de Emenda à Constituição) de autonomia financeira do Banco Central para aumentar o valor coberto pelo FGC (Fundo Garantidor de Crédito) de R$ 250 mil por CPF para R$ 1 milhão.
- A cobertura do FGC era uma das principais estratégias do Master para alavancar os investimentos em seus CDBs (Certificados de Depósitos Bancários). A emenda não foi aprovada e a empresa de Vorcaro foi liquidada pelo Banco Central em novembro de 2025, quando o banqueiro foi preso pela 1ª vez.
- Segundo os policiais federais, a emenda foi redigida pela assessoria do banco e entregue a Nogueira. “Também há notícia de circulação, a partir de sua residência, de minutas de outros projetos legislativos do interesse particular”, acrescentou a decisão judicial.
Amigos com benefícios
- A ligação entre Vorcaro e Nogueira configura “o estabelecimento de um arranjo funcional e instrumentalmente orientado para obtenção de benefícios mútuos, extrapolando relações de mera amizade“, segundo a PF.
- De acordo com as investigações, o senador recebia repasses mensais de R$ 300 mil do banqueiro por intermédio de uma pessoa jurídica.
- Vorcaro também disponibilizou um imóvel de alto nível por tempo indeterminado para o parlamentar, sem cobrar por isso, e pagou hospedagens, deslocamentos e outras despesas de Nogueira durante viagens internacionais.
- Em mensagens extraídas pelos policiais do aparelho celular do banqueiro, ele se referiu ao senador como um de seus “grandes amigos de vida” e afirmou desejar apresentá-lo à então namorada, em maio de 2024.
Irmão de Ciro Nogueira participava do esquema
- Alvo de busca e apreensão da Polícia Federal, Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima é apontado como o “agente de sustentação formal e operacional da estrutura empresarial vinculada ao núcleo familiar” do senador, de quem é irmão.
- Raimundo atuava como administrador da empresa que foi registrada para as transações que remuneravam Ciro em troca da atuação política a favor do Master, conforme as investigações.
- Além do mandado, o senador está proibido de contatar outros investigados pelo caso Master.
O que diz a defesa do senador
Em nota, os advogados de Nogueira afirmaram que a operação se baseou em “mera troca de mensagens” e negaram “qualquer participação em atividades ilícitas e nos fatos investigados” por parte do cliente.
“Medidas investigativas graves e invasivas tomadas com base em mera troca de mensagens, sobretudo por terceiros, podem se mostrar precipitadas e merecem a devida reflexão e controle severo de legalidade, tema que deverá ser enfrentado tecnicamente pelas Cortes Superiores muito em breve”, concluíram.
Investigação do Master: entenda em 5 pontos
- A Compliance Zero é a operação que levou Daniel Vorcaro à prisão após a liquidado do Master pelo Banco Central. O banqueiro foi solto após a primeira detenção, em novembro de 2025, mas voltou a ser preso em março de 2026, com a apreensão de seu aparelho celular.
- Vorcaro é suspeito de liderar uma organização criminosa envolvida em fraudes financeiras, lavagem de dinheiro, corrupção e intimidação de críticos e entregou uma proposta de delação premiada às autoridades nesta semana.
- O escândalo ameaça Brasília. A teia de relações do banqueiro com o poder vai de políticos do chamado “centrão”, incluindo Ciro Nogueira, ao Supremo Tribunal Federal.
- Na corte, o ministro Dias Toffoli se declarou suspeito e deixou julgamentos relativos ao caso após a revelação de que tinha relações comerciais com o banco no resort de luxo Tayayá. O escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes teve um contrato de R$ 129 milhões para prestar serviços ao Master. Parlamentares pedem o impeachment dos dois magistrados pela relação.
- A CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar o Master no Congresso reúne as assinaturas necessárias para instalação, mas não foi adiante. Autor do requerimento, o senador Eduardo Girão (Novo-CE) responsabiliza o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), por não instalá-la.