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DNA brasileiro pode explicar a longevidade humana extrema
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Saúde

DNA brasileiro pode explicar a longevidade humana extrema

Redação com web

Um estudo do Genoma USP sugere que a longevidade extrema de brasileiros com mais de 110 anos pode estar ligada à alta miscigenação genética do país, que reúne variantes raras pouco estudadas em populações homogêneas. A pesquisa com centenários e supercentenários identificou milhões de variantes genéticas exclusivas, forte resiliência imunológica — inclusive contra a Covid-19 antes das vacinas — e indícios de herança familiar da longevidade. Segundo os pesquisadores, esses achados mostram a importância de incluir populações diversas, como a brasileira, em estudos globais sobre envelhecimento saudável.

O que permite a um ser humano atravessar a barreira dos 110 anos com lucidez, autonomia e, em alguns casos, fôlego para nadar competitivamente? A resposta para essa pergunta  pode estar no DNA altamente miscigenado da população brasileira, segundo novo artigo publicado nesta terça-feira, 6, na revista Genomic Psychiatry por pesquisadores do Genoma USP (Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco ).

Até agora, a maior parte dos dados sobre longevidade veio de populações geneticamente homogêneas, o que, para os cientistas da USP, criou um “ponto cego” estatístico. Ao focar apenas em ascendências europeias, a ciência pode ter ignorado variantes que só surgem no caldeirão genético brasileiro, fruto da mistura entre indígenas, europeus, asiáticos e os cerca de 4 milhões de africanos trazidos à força durante o período colonial.

“Essa lacuna é especialmente limitante na pesquisa sobre longevidade, onde supercentenários miscigenados podem abrigar variantes protetoras únicas invisíveis em populações geneticamente mais homogêneas”, explica Mateus Vidigal de Castro, pesquisador do Genoma USP e primeiro autor do estudo. 

Corroborando com a pesquisa, investigações recentes da USP identificaram 8 milhões de variantes genéticas exclusivas da população brasileira, além de 140 componentes do sistema imunológico (alelos HLA) na população idosa totalmente ausentes nos bancos de dados globais.

Resiliência durante a pandemia

A pesquisa acompanhou um grupo de 160 centenários e, entre eles, estava a Irmã Inah, que deteve o título de pessoa mais velha do mundo até abril de 2025, quando faleceu aos 116 anos.

Nesse caso, três dos dez homens mais velhos do planeta são brasileiros, incluindo o atual recordista mundial, nascido em 1912. Já entre as mulheres, o cenário também é parecido, com mais supercentenárias brasileiras no top 15 das mais longevas do mundo do que países mais populosos e desenvolvidos, incluindo os Estados Unidos.

O que mais impressiona os cientistas, porém, não é apenas o tempo de vida, mas a resiliência biológica. Durante o auge da pandemia de Covid-19 em 2020, três supercentenários brasileiros sobreviveram ao vírus antes mesmo da existência de vacinas.

O segredo, segundo as análises mostraram, é que esses indivíduos, mesmo com mais de 110 anos, montaram uma resposta de anticorpos tão robusta quanto a dos jovens, mantendo mecanismos de “limpeza celular” (autofagia) em pleno funcionamento.

O fator familiar: herança ou sorte?

A genética parece ter um papel importante na longevidade. O estudo destaca o caso de uma mulher de 110 anos cujas sobrinhas têm 100, 104 e 106 anos. Esta última, Laura de Oliveira, aos 100, ainda conquistava medalhas na natação e se tornou recordista mundial.  Segundo os autores, irmãos de centenários têm uma probabilidade até 17 vezes maior de atingir a mesma marca. 

Diferente de supercentenários de países desenvolvidos, muitos dos brasileiros estudados vieram de regiões carentes e tiveram pouco acesso à medicina ao longo da vida. Para a Dra. Mayana Zatz, coordenadora do Genoma USP, isso torna o grupo ainda mais especial: 

“Os consórcios internacionais de longevidade e genômica deveriam expandir o recrutamento para incluir populações ancestralmente diversas e miscigenadas, como a do Brasil, ou fornecer apoio financeiro para estudos genômicos, imunológicos e longitudinais que aprofundem o conhecimento científico e melhorem a equidade na pesquisa em saúde global”.

Redação com web

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