Dia Internacional da Mulher: o que dizem as pesquisa sobre mulheres no trabalho
Pesquisas divulgadas no Dia Internacional da Mulher mostram que as mulheres ainda enfrentam desigualdades no mercado de trabalho, com menor presença em cargos de liderança, diferença salarial de cerca de 20% e maior carga de trabalho doméstico. Segundo estudo da Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados e do Todas Group, muitas profissionais contam mais com apoio de outras mulheres para crescer na carreira, apesar de enfrentarem machismo e sacrifícios pessoais, como menos tempo para autocuidado e família. Dados também indicam que as mulheres ocupam apenas 23,5% dos cargos executivos nas maiores empresas do país, e especialistas defendem mudanças estruturais, como divisão mais equilibrada das tarefas de cuidado e políticas que incentivem a igualdade no trabalho.
Em meio ao Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, pesquisas recentes ajudam a dimensionar como ainda se estruturam as desigualdades de gênero no mercado de trabalho. Levantamentos recentes mostram que as mulheres continuam em minoria em cargos de liderança, enfrentam diferenças salariais e acumulam maior carga de trabalho doméstico.
Ao mesmo tempo, os dados também apontam a importância das redes de apoio entre mulheres para a progressão na carreira. Uma pesquisa da Nexus e do Todas Group, realizada em fevereiro de 2026, mostra que 41% das entrevistadas contaram preferencialmente com o apoio de outras mulheres para ascender profissionalmente, por mais que ainda sejam minoria em cargos de liderança.
Ana Fontes, fundadora da RME (Rede Mulher Empreendedora), também ressalta a importância de incentivar mais mulheres a adentrar e crescer no mercado. À frente da Rede desde 2017, ela ajudou na arrecadação de cerca de R$37.310.649 com um impacto em mais de 725.826 mulheres.
Segundo a pesquisa, que ouviu 1.534 mulheres em cargos de liderança, o auxílio feminino é significativamente superior ao dos homens, responsáveis por apenas 14% do suporte. O levantamento também constatou que esse movimento é ainda maior entre as mulheres da nova geração, com esse índice chegando a 48% entre profissionais de 25 a 40 anos.
“Conectamos essas mulheres entre elas, porque a gente entendeu que é mais importante ainda para as mulheres que elas estejam juntas, conectadas para apoiar umas as outras”, enfatiza Ana, sobre as ações da Rede.
Contudo, a ascensão ainda cobra um preço desproporcional. A pesquisa da Nexus mostrou que 74% das líderes precisaram abrir mão do autocuidado para crescer, enquanto 53% sacrificaram a saúde mental e o tempo com a família.
A presença feminina no mercado
No setor público, um estudo do Movimento Pessoas à Frente, chamado “Desigualdade de Gênero em Cargos de Liderança no Executivo Federal” aponta que, embora as mulheres representem a maioria da população (51,5%), elas ainda são minoria nos cargos de liderança (42,4%), com a disparidade aumentando conforme a hierarquia sobe.
No setor privado, o cenário também persiste. De acordo com o relatório “Perfil Social, Racial e de Gênero das 1.100 Maiores Empresas do Brasil e suas Ações Afirmativas 2023-2024” do Instituto Ethos, as mulheres ocupam apenas 23,5% dos cargos executivos nas maiores empresas brasileiras.
Além disso, a sobrecarga com afazeres domésticos e cuidados familiares é apontada pela Pnad Contínua como a principal barreira para a presença delas no mercado. “As mulheres, por conta dessa questão, acabam dedicando menos tempo ao negócio e isso tem impacto”, explica Ana.
Esse “trabalho invisível” também gera reflexos na saúde: o SUS registrou um aumento de 54% nos atendimentos por Síndrome de Burnout entre mulheres em 2023, em comparação a 2024, superando os casos entre homens, segundo dados do Ministério da Saúde.
O abismo salarial e de representação
Dados do 4º Relatório de Transparência Salarial do Ministério do Trabalho também mostram que a diferença salarial permanece estagnada na casa dos 20%. Em média, as mulheres recebem R3.908,76,enquanto os homens ganham 4.958,43.
“70% das mulheres empreendem no que chamamos de “área de domínio da mulher”, que são moda, beleza, alimentação, serviços, etc, e o mercado financeiro, infelizmente, ainda não olha esse esses segmentos como sendo áreas potenciais”, conta.
A desigualdade é ainda maior entre as mulheres negras, que ganham 53,3% menos que os homens brancos. Na academia, segundo o estudo “Desigualdades Raciais na Ciência Brasileira” de 2023, elas representam apenas 2,5% das docentes em programas de pós-graduação em Ciências Biológicas e Exatas registrados no país.
As barreiras não são apenas financeiras, mas comportamentais. Segundo a pesquisa da Nexus, oito em cada dez mulheres em cargos de liderança relataram ter sentido o machismo como um impeditivo para crescer.
Além disso, 63% afirmaram que homens dificultaram diretamente seu crescimento e apenas 11% nunca presenciaram comentários machistas no ambiente corporativo. Curiosamente, em empresas onde há maior equilíbrio de gênero na liderança, o desrespeito cai drasticamente: 65% dizem raramente ou nunca ouvir comentários desse tipo.
As perspectivas de mudança
Em meio a comemoração do Dia Internacional, é necessário a implementação de ações concretas e não apenas homenagens simbólicas. Segundo as entrevistadas pela pesquisa, essas são as principais demandas:
- 20% gostariam de programas de aceleração de carreira
- 17% desejam ver mais mulheres promovidas para cargos estratégicos
- 16% pedem flexibilização da jornada para equilíbrio entre vida pessoal e profissional
Segundo dados do Global Gender Gap Report de 2023, do Fórum Econômico Mundial, hoje o caminho para a paridade global é estimado em 131 anos e 53 anos na América Latina e no Caribe.
Para que o cenário mude no país, são necessárias mudanças estruturais como a implementação da licença-paternidade ampliada, que foi aprovada pelo Senado na quarta-feira, 4, e espera a sanção presidencial, além da legalização de políticas de reconhecimento do trabalho doméstico e de cuidado.
“O trabalho do cuidado, ele não precisa necessariamente ser feito por mulheres. Não existe nada que justifique que só as mulheres podem cuidar da família, dos filhos, dos idosos e dos doentes”, pontua Ana.