Devemos nos preparar para uma invasão dos EUA, diz primeiro-ministro da Groelândia
O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, alertou a população para se preparar diante da possibilidade de uma incursão militar dos Estados Unidos, citando declarações de Donald Trump que mantêm essa hipótese em aberto. Ele destacou que a ilha, estratégica no Ártico e rica em recursos naturais, integra a Otan e que qualquer escalada teria impactos internacionais, reforçando que o interesse dos EUA envolve sobretudo a posição geopolítica da Groenlândia frente à Rússia e à China.
O primeiro-ministro da Groelândia, Jens-Frederik Nielsen, pediu à população que se preparem para uma eventual incursão militar dos Estados Unidos no país.
“O líder do outro lado [Trump] deixou claro que essa possibilidade não está descartada. Portanto, devemos estar preparados para tudo”, disse Jens-Frederik Nielsen.
Nielsen disse que o governo está preparando também panfletos com instruções sobre o que fazer em caso de incursão militar.
“Precisamos também enfatizar que a Groenlândia faz parte da aliança ocidental, a Otan, e se houver uma escalada ainda maior, isso também terá consequências para todo o mundo exterior”, complementou.
O interesse dos EUA pela Groenlândia
Após consolidar a captura de Nicolás Maduro e indicar que a pressão militar americana no hemisfério ocidental ainda não se encerrou, o presidente dos EUA, Donald Trump, retomou sua atenção à Groenlândia. A retórica pela anexação do território autônomo dinamarquês, no entanto, não é recente, e remonta a um interesse americano disparado há mais de um século.
A Groelândia voltou ao foco dos EUA por sua posição no Atlântico Norte, que levou os EUA a considerarem a compra ou anexação do território em diversas ocasiões, seja para consolidar o poder no hemisfério pós-Guerra Civil, seja para impedir o avanço russo na Guerra Fria.
O interesse dos EUA pela Groenlândia está longe de ser novo. Já em 1867 – o ano em que os EUA compraram o Alasca da Rússia –, políticos consideraram anexar a Groenlândia e também a Islândia. O país havia saído de uma guerra civil no ano anterior e se deixava levar por um espírito expansionista, tentando consolidar rotas marítimas estratégicas.
Ocupando cerca de metade do tamanho somado dos países da União Europeia (UE), a Groenlândia é a maior ilha do mundo. Em seus pouco mais de 2 milhões de quilômetros quadrados vivem, porém, apenas cerca de 60 mil pessoas. A maioria pertence aos inuit Kalaallit e vive em pequenas cidades costeiras. Cerca de um terço habita a capital, Nuuk.
A ilha se estende do Atlântico Norte até o gelo eterno do Oceano Ártico. Oitenta por cento da superfície da Groenlândia é coberta por uma camada de gelo. Apenas as regiões costeiras – ainda assim uma área um pouco maior que a Alemanha – ficam livres de gelo durante o verão.
O aquecimento global, no entanto, faz com que as massas de gelo em todo o Oceano Ártico encolham gradualmente. Isso torna o interior da Groenlândia mais acessível, o que abre novas rotas marítimas pelo Ártico e torna mais viável a exploração de matérias-primas críticas.
Entre elas, estão urânio, petróleo e gás natural, além das duas maiores jazidas conhecidas de terras raras do mundo. Somam-se a isso níquel, cobre, ouro e grafite. A extração destes materiais foi interrompida pelo governo groenlandês por razões ambientais.
Trump rejeita que seu interesse seja nos minerais da região. Segundo ele, Washington vê a ilha como um posto avançado estratégico no espaço ártico, especialmente diante das atividades crescentes da Rússia e da China na região. Isso também envolve limitar o acesso de outras grandes potências aos recursos do Ártico e ao seu controle sobre novas rotas marítimas.