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Crise em Ormuz acelera busca por rotas alternativas de petróleo
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Brasil/Mundo

Crise em Ormuz acelera busca por rotas alternativas de petróleo

Redação com web

A crise no Estreito de Ormuz reacendeu a busca por rotas alternativas para reduzir a dependência global da passagem, após o conflito no Oriente Médio afetar o fluxo de petróleo. Países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Iraque aceleram projetos de oleodutos, terminais e redes ferroviárias para garantir exportações e reduzir riscos geopolíticos. Apesar dos altos custos e desafios políticos, a crise impulsionou novos investimentos em infraestrutura energética e logística como estratégia para fortalecer a segurança do abastecimento mundial.

A tensão geopolítica no Oriente Médio, exacerbada pela recente guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, reacendeu a preocupação global com a fragilidade do Estreito de Ormuz. Em fevereiro, a promessa iraniana de fechar o estreito em caso de ataque foi cumprida, interrompendo cerca de um quinto do fornecimento mundial de energia ao deixar centenas de navios-tanque encalhados e transformando a artéria vital do transporte de petróleo bruto em um campo de batalha. Essa crise impulsiona a busca por soluções para reduzir a dependência da passagem.

O que aconteceu

  • A escalada de tensões no Oriente Médio expôs a vulnerabilidade do Estreito de Ormuz, impactando o fornecimento global de energia.
  • Países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Iraque aceleram projetos de oleodutos e terminais alternativos para contornar o Estreito de Ormuz.
  • Além dos oleodutos, a região busca expandir redes ferroviárias e rodoviárias para garantir o escoamento de cargas e reduzir riscos.

Historicamente, a importância do Estreito de Ormuz como ponto de estrangulamento energético já havia sido demonstrada. Durante a Guerra Irã-Iraque, entre 1980 e 1988, os petroleiros foram alvos constantes, levando a Arábia Saudita a construir o Oleoduto Leste-Oeste, que conecta a península desértica ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Anos depois, os Emirados Árabes Unidos seguiram o exemplo com o Oleoduto Habshan–Fujairah, que liga Abu Dhabi ao golfo de Omã, evidenciando a necessidade de rotas alternativas para a segurança energética regional.

Golfo reage à instabilidade e busca alternativas

Os líderes do Golfo Pérsico, conscientes da fragilidade renovada, avançam com planos que visam desviar uma parcela maior de seu petróleo bruto do estreito. O objetivo principal é garantir as exportações no longo prazo, minimizando a exposição a futuras interrupções geopolíticas. Tais iniciativas visam assegurar a estabilidade dos mercados globais de energia, que dependem fortemente da produção e do escoamento do petróleo da região.

Recentemente, o jornal Financial Times noticiou que nações como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos estão avaliando ativamente novos oleodutos, que correriam paralelamente às estruturas existentes. Além disso, a ampliação de terminais de exportação em litorais alternativos está em pauta, com o intuito de diversificar as saídas e reduzir a concentração de riscos na vital via marítima.

Landon Derentz, diretor sênior do Global Energy Center do think tank Atlantic Council, defendeu publicamente o apoio do governo Trump aos novos projetos, inclusive com financiamento dos Estados Unidos. Ele ressaltou a importância estratégica de tais investimentos, afirmando: “Em vez de forçar os navios a passar por esse gargalo, os Estados Unidos e seus parceiros deveriam construir rapidamente alternativas a ele”.

Derentz ainda acrescentou: “A Arábia Saudita já demonstrou que uma infraestrutura de desvio pode aliviar parte do estrangulamento. Esse modelo agora precisa ser ampliado de forma significativa”. Atualmente, o oleoduto saudita de 1.200 quilômetros opera em sua capacidade máxima de 7 milhões de barris por dia (bpd), um aumento em relação aos 5 milhões anteriores à guerra. Os Emirados, por sua vez, canalizam 1,8 milhão de bpd para o porto de Fujairah.

O desafio: duplicar a capacidade existente?

Apesar de essas medidas oferecerem um colchão de proteção aos mercados globais, o desafio de contornar Ormuz é monumental, conforme pontua Robin Mills, CEO da Qamar Energy, consultoria especializada em estratégia energética e geopolítica do Oriente Médio. Ele observa que “antes da guerra, cerca de 15 milhões de barris por dia de petróleo bruto passavam pelo estreito. Seria preciso dobrar [a capacidade atual dos oleodutos] para escoar todo o volume de exportações”.

Especialistas e autoridades do setor, citados pelo Financial Times, reconhecem que, embora a construção de novos oleodutos seja cara, demorada e, por vezes, politicamente complexa, essa pode ser a única maneira de os países do Golfo reduzirem sua exposição a futuras interrupções. Muitos desses planos para rotas alternativas, embora discutidos há anos, foram paralisados por fatores como distância, custos elevados e as intrincadas rivalidades regionais.

Alguns países enfrentam obstáculos geográficos

Nem todos os países do Golfo possuem a mesma flexibilidade. “As novas rotas da Arábia Saudita ou dos Emirados poderiam avançar quase imediatamente e levar de dois a três anos para serem construídas”, explica Mills. Contudo, nações como Kuwait, Bahrein e Catar enfrentam um grande problema geográfico: a ausência de litorais alternativos, o que significa que quase todas as suas exportações de hidrocarbonetos precisam passar pelo Estreito de Ormuz.

Para esses países, a solução passaria por oleodutos “longos e negociações políticas complicadas” via Arábia Saudita ou Irã, um processo que levaria no mínimo três a quatro anos ou mais, segundo o analista. Essa complexidade ressalta a assimetria na capacidade de adaptação da região à crise do Estreito de Ormuz.

Iraque impulsiona seus projetos de oleodutos

Além dos países do Golfo, organizações internacionais também pressionam por soluções regionais mais amplas no esforço de redução de riscos. A Agência Internacional de Energia (AIE) defende ativamente a construção de um grande novo oleoduto ligando o Iraque ao porto mediterrâneo de Ceyhan, na Turquia. Fatih Birol, diretor-executivo da AIE, afirmou ao jornal turco Hurriyet que o projeto é “extremamente atraente”, fortalecendo a segurança energética europeia e que a “questão do financiamento pode ser superada”.

O Iraque, por sua vez, tem acelerado seus próprios projetos de infraestrutura. O oleoduto de exportação já existente, que conecta a região norte de Kirkuk à Turquia, foi reativado em setembro passado após dois anos e meio de paralisação e atualmente bombeia até 250 mil barris por dia. A crise de Ormuz deu novo impulso a essas e outras rotas ocidentais.

No início deste mês, o governo iraquiano avançou para a fase de licitação do trecho Basra–Haditha, orçado em 4,6 bilhões de dólares. Essa linha de 685 quilômetros, que se estende do sul do país em direção à fronteira com a Síria, é vista como o primeiro segmento crucial de um projeto maior. Ele poderia, no futuro, se estender até o porto de Aqaba, no Mar Vermelho, na Jordânia, ou, possivelmente, até a Síria ou a Turquia, com capacidade para transportar até 3 milhões de bpd em etapas. O Iraque também considera um oleoduto separado até o porto de Duqm, no golfo de Omã, cujas conversas iniciais foram anunciadas em setembro.

Rotas terrestres ganham importância estratégica

Para além dos oleodutos, os países do Golfo já possuem planos concretos para expandir suas redes ferroviárias e rodoviárias, ainda limitadas, com o objetivo de facilitar a exportação de cargas não relacionadas ao petróleo bruto. O projeto emblemático da Ferrovia do Conselho de Cooperação do Golfo, por exemplo, prevê uma rede integrada de 2.100 quilômetros, conectando os seis países do bloco até 2030.

Durante a crise, a malha ferroviária dos Emirados, operada pela Etihad Rail, ampliou os serviços de carga para desviar contêineres de portos vulneráveis do Golfo em direção a saídas mais seguras no leste. A Arábia Saudita também aumentou a capacidade de sua rede ferroviária e lançou novas rotas de carga para mercadorias encalhadas. Embora esses esforços não consigam substituir os enormes volumes transportados por petroleiros, eles aliviam significativamente a pressão sobre as cadeias de suprimento, funcionando como uma salvaguarda estratégica contra a dependência do Estreito de Ormuz.

Os Estados do Golfo, detentores de considerável poder financeiro, têm os meios para transformar esses projetos ambiciosos em realidade. A questão crucial, no entanto, reside na capacidade de alinhar a vontade política para superar os obstáculos regionais e financeiros. A resposta a essa questão determinará se a atual crise marcará o começo do fim do controle exercido pelo Estreito de Ormuz sobre a energia global, ou apenas mais um capítulo de sua contínua saga geopolítica.

Com informações da DW

Redação com web

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