Corrida por ‘novo Ozempic’ tem competidores na Europa, EUA e China
O mercado de medicamentos à base de GLP-1 para obesidade cresce rapidamente no Brasil e pode movimentar até R$ 50 bilhões até 2030, impulsionado pela alta taxa de obesidade no país. Com a aproximação do fim das patentes do Ozempic, farmacêuticas como Eli Lilly e Novo Nordisk disputam a liderança com novas substâncias mais potentes e práticas, enquanto outros laboratórios entram na corrida com alternativas inovadoras. A competição intensa já reflete no mercado financeiro e sinaliza uma nova fase no tratamento do sobrepeso.
Enquanto o mercado de agonistas do GLP-1, popularmente apelidadas de “canetas emagrecedoras”, segue em crescimento, empresas farmacêuticas permanecem na busca de novas substâncias capazes de se tornar um “novo Ozempic” e assumir a liderança no tratamento da obesidade e do sobrepeso. O Itaú BBA projeta que, até 2030, essa substâncias representarão 20% do varejo farmacêutico brasileiro, movimentando pelo menos R$ 50 bilhões.
“Esse mercado tende a aumentar, a crescer, porque a importância do GLP-1 está em uma questão de saúde pública”, afirma Gerson Brilhante, analista da Levante Inside Corp. Segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2025, cerca de 31% da população brasileira é obesa, o que significa um em cada três adultos brasileiros vivendo com obesidade.
Grande parte das pesquisas segue concentrada na dinamarquesa Novo Nordisk – fabricante do Ozempic e do Wegovy – e na norte-americana Eli Lilly – que tem o Mounjaro como seu carro chefe. Ambas seguem focadas em conseguir novos medicamentos para substituir seus fármacos atuais enquanto as patentes caminham para a queda. Por exemplo, o fim da propriedade intelectual da semaglutida, substância ativa do Ozempic e do Wegovy, ocorrerá em março de 2026 no Brasil.
“As duas primeiras insulinas foram feitas justamente por esses dois laboratórios. Uma fez a insulina de ação rápida e outra de ação lenta, e são as que a gente usa até hoje, que estão disseminadas no SUS”, afirma o cardiologista Gustavo Lenci Marques, professor de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Eli Lilly lidera pesquisas
O laboratório norte-americano responsável pelo Mounjaro tem ao menos outras quatro substâncias atualmente em pesquisa para tratamento do sobrepeso. Marques destaca a Orforgliprona como a mais promissora. “Ele tem a vantagem de ter uma produção muito mais fácil e lá nos Estados Unidos já está em fase final de aprovação”, diz. O medicamento poderia, assim, rapidamente entrar no mercado em grande quantidade.
Entre os próximos lançamentos esperados, o segundo destaque selecionado pelo médico também é uma substância em pesquisa pela Eli Lilly, a Retatrutida. Apesar de o estudo sobre o medicamento ainda não estar oficialmente publicado, o laboratório afirma que alcançou resultados de até 28% de redução do peso corporal em 68 semanas. Caso comprovado, o resultado seria até três vezes mais potente do que concorrentes.
Em parceria com a Eli Lilly, a chinesa Innovent Biologics investiga ainda uma molécula chamada Mazdutide, que apresentou resultados semelhantes ao da tirzepatida, substância presente no Mounjaro.
Reação da Novo Nordisk
Já a fabricante do Ozempic busca força na competição com a Cagrisema, com redução próxima a 20% da massa corporal. “Porém, parece que a Novo Nordisk está vindo um pouco atrasada, porque já tem o Mounjaro que alcança um resultado bem próximo a isso”, diz Marques.
Outra aposta da empresa está no Wegovy em comprimido, lançado na semana passada nos Estados Unidos. As ações da empresa chegaram a disparar 8% depois que dados divulgados na sexta-feira, 16, apontaram uma boa adesão ao medicamento entre os consumidores. Desde que a novidade foi anunciada, no começo de dezembro, os papéis da empresa já avançaram cerca de 25%.
No último ano, no entanto, o resultado da Novo Nordisk é menos positivo. A empresa, que já foi a mais valiosa da Europa, acumula desvalorização de cerca de 35% no mercado europeu em meio a queda das patentes e o aumento da competição. No mesmo período, a Eli Lilly disparou quase 22% e se tornou, em novembro, a primeira farmacêutica com valor de mercado trilionário no mercado financeiro dos Estados Unidos.
Outros laboratórios na disputa
Enquanto a Eli Lilly e a Novo Nordisk disputam o topo, outras empresas buscam entrar na disputa. A suíça Novartis, por exemplo, testa no momento o Bimagrumab. “É um anticorpo sintetizado que vai atuar em uma proteína específica para impedir a perda de massa magra. Ou seja, a ideia deles é associar o Bimagrumab com algum outro medicamento para perder massa gorda, garantindo que isso ocorra sem perda de massa magra”, explica Gustavo Lenci Marques.
Já a norte-americano Amgen investiga a maridebart cafraglutida, que tem como nome de desenvolvimento Maritide. O remédio encontra-se em fase final de testes e, apesar de ter alcançado resultados semelhantes ao Wegovy, possui a vantagem de exigir apenas aplicações mensais.
Já a também chinesa Sciwind Biosciences desenvolve pesquisas com a ecnoglutida, que também tem semelhanças com a semaglutida.