Como as canetas emagrecedoras estão redesenhando a economia
A expiração da patente da semaglutida — usada em medicamentos como Ozempic e Wegovy — deve transformar o mercado brasileiro de tratamentos para obesidade, permitindo a entrada de genéricos mais baratos e ampliando o acesso. Além de impulsionar um setor bilionário, esses remédios, que reduzem o apetite e auxiliam na perda de peso, já começam a impactar hábitos de consumo, pressionando indústrias como a de alimentos, energia e até aviação, ao mesmo tempo em que podem favorecer dietas mais saudáveis e mudanças econômicas globais duradouras.
Desde que as primeiras canetas emagrecedoras desembarcaram no Brasil há cerca de dez anos, o mercado de medicamentos para a obesidade virou de cabeça para baixo. Foram múltiplas versões, com princípios ativos, dosagens e graus de eficácia variados, quase sempre com preços astronômicos, mas sempre apresentadas no formato de seringa plástica de autoaplicação. Agora, uma nova guinada na área está em curso com a expiração da patente da semaglutida, a substância ativa dos remédios Ozempic e Wegovy da fabricante dinamarquesa Novo Nordisk, no dia 20 de março.
Com isso, outras empresas poderão fabricar no Brasil suas próprias versões do remédio que foi criado para tratar diabetes, mas virou referência mesmo no combate à obesidade. Uma amostra das oportunidades de negócios que surgem a partir de agora pode ser medida pela fila dos pedidos de autorização que tramitam na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ao todo são 14 pedidos de versões de genéricos ou similares da semaglutida. Oito delas devem ter retorno, que pode ser ou não o sinal verde, ainda em abril.
Tamanho interesse se justifica, pois se trata de um segmento que alcança R$ 10 bilhões em vendas no Brasil e pode crescer cinco vezes até 2030. A reviravolta que tais medicamentos têm provocado, entretanto, não se limita à indústria farmacêutica e ao universo da saúde. A febre das canetas e os impactos que ela provoca no dia a dia das pessoas está provocando severas mudanças em outras áreas.
As indústrias de alimentos e bebidas serão as primeiras a ter de reinventar-se. Empresas aéreas e de vestuário também arcarão com sua cota de reformulação, considerando-se os estudos já elaborados em mercados onde a penetração do uso das canetas emagrecedoras é maior.
Vale lembrar como eles funcionam: os medicamentos, agrupados sob a denominação de agonistas do GLP-1 (um hormônio responsável pela sensação de saciedade), acarretam uma perda de peso comparável à das cirurgias bariátricas e costumam ser associados a um estilo de vida mais saudável, o que inclui alterações comportamentais, como a adoção de uma alimentação mais equilibrada e prática de exercícios físicos.
Nos Estados Unidos, um mercado onde o uso do medicamento começou antes e em escala maior, dado o poder aquisitivo da população, a consultoria KPMG estima que a indústria alimentícia experimentará uma redução anual de receita de US$ 48 bilhões pelos próximos dez anos devido ao avanço desse tipo de medicamento. É uma estimativa que pode ser conservadora, diz o próprio relatório. Paralelamente, o mercado global de GLP-1 deve crescer a uma taxa anual composta de quase 30% até 2030. Mesmo que os gostos alimentares de brasileiros e norte-americanos não sejam os mesmos, há similaridades comportamentais.
Nos Estados Unidos, o sobrepeso alcança 72,9% da população adulta e a proporção de obesos chega a 43%. O estudo da KPMG aponta que 3,5% dos norte-americanos já fazem uso da classe de medicamento, que inclui o Ozempic e o Mounjaro. A parcela corresponde a cerca de 13 milhões de usuários. O número está em crescimento contínuo. Quem toma o remédio, informa o relatório, passa a consumir 21% menos calorias e a gastar 31% menos nas compras mensais, o que explica o cálculo anual projetado para o setor de alimentos e bebidas nos Estados Unidos.
Apesar de ter uma população menor, o Brasil apresentou um considerável aumento no número de pessoas na faixa de sobrepeso em apenas duas décadas, de 43% para 63% população. Em se tratando de obesidade, o contingente mais que dobrou no mesmo período, de 12% para 26%. Na esteira disso vem crescendo a busca por redução da ansiedade, derivada de maior consciência sobre o estilo frenético de vida resultante do uso de internet e redes sociais, e hábitos mais saudáveis que possam aliviar um pouco a rotina.
Nos próximos 18 meses o país passará a contar com um punhado de empresas habilitadas a produzir seus próprios agonistas de GLP-1 com um custo 35% menor. “Isso muda o cenário”, afirma Fernando Gamboa, sócio-líder de consumo e varejo na KPMG do Brasil. “Torna-se possível inclusive levar para o SUS e massificar a disponibilização”, segue o executivo.
Num cenário assim, será possível assistir no Brasil a mesma dinâmica de alteração de consumo de alimentos, com pessoas migrando de categorias de ultraprocessados e indulgência (basicamente doces, petiscos e salgadinhos com alto índice de calorias e gorduras), que devem sofrer queda de vendas, para o alimento in natura e as proteínas. Nos mercados onde o GLP-1 tem ampla utilização, as dietas proteicas vêm ganhando cada vez mais espaço, inclusive porque a perda de massa magra é um dos efeitos colaterais para quem usa o medicamento.

Fernando Gamboa, sócio-líder de consumo e varejo na KPMG do Brasil (Crédito:Divulgação/Abimapi)
Impactos até na aviação civil
Outras indústrias que aparentemente têm pouca conexão com o assunto, como a aviação civil, também verão reflexos. Nos Estados Unidos, percebeu-se que a redução no peso das pessoas foi tal que afetou as viagens de aviões – eles ficaram mais leves, passaram a gastar menos combustível, acarretando menor custo e melhoria operacional. A KPMG deve fazer o mesmo estudo para o mercado brasileiro, provavelmente após o primeiro ano da liberação da patente da semaglutida, que é apenas uma das moléculas utilizadas nas canetas emagrecedoras. Há outras.
Os medicamentos do grupo simulam hormônios, reduzindo a glicose no sangue e aumentando a sensação de saciedade. O mercado brasileiro hoje é disputado por quatro moléculas principais: além da semaglutida, do Ozempic e Wegovy, há ainda a tirzepatida (Mounjaro, da norte-americana Eli Lilly, o principal concorrente), a liraglutida (Saxenda, Victoza, Olire e Lirux) e a Dulaglutida (Trulicity). Com uma considerável elasticidade de preços, elas variam também em graus de eficácia e na apresentação de efeitos colaterais.
Entre os laboratórios que aguardam autorização da Anvisa para as soluções genéricas estão EMS, Biomm e União Química, que aparecem nas primeiras posições da fila – e deverão receber aprovação para comercializar versões mais baratas do medicamento mais rapidamente. A Novo Nordisk, que viu os ganhos caírem em 2025 com a pesada concorrência do laboratório americano Eli Lilly (e seu Mounjaro), mudou a política de preços por aqui antes mesmo da queda da patente.
O laboratório dinamarquês fez promoções, e passou a disponibilizar uma segunda caneta com dose inicial de 0,25 mg do Wegovy na compra de uma unidade. Já a versão oral da semaglutida, comercializada sob a marca Rybelsus, foi reduzida de pouco mais de R$ 1,2 mil a caixa para um intervalo entre R$ 565 e R$ 874 (os valores variam conforme a dosagem e o canal de compra físico ou digital).
A Novo Nordisk brigou bastante na Justiça antes da queda da patente e tentou prolongar a exclusividade para produzir semaglutida no Brasil. Mas, não deu. Acabou assumindo em nota que “o encerramento de uma patente é etapa natural no ciclo de vida de qualquer inovação”. E adicionou que “a empresa segue investindo em ciência capaz de antecipar necessidades futuras”. Vida que segue.
Agora, o laboratório vai disputar ferozmente por espaço entre os concorrentes genéricos com preços consideravelmente mais baixos. A versão da Biomm, por exemplo, deve chegar ao mercado brasileiro com preço 30% inferior em comparação ao medicamento de referência – o índice mínimo para um medicamento poder receber a classificação de genérico.
A queda da patente não garante a chegada imediata das versões genéricas e similares às farmácias. O tempo para que estejam disponíveis no mercado dependerá ainda da aprovação da Anvisa. Não há um prazo definido para o processo de análise pelo órgão regulador. A média para registro de genéricos e similares é de 944 dias, ou seja, cerca de dois anos e sete meses. Como se trata de uma medicação com alta demanda entre a população, a expectativa é que a aprovação das primeiras versões alternativas do Ozempic receba prioridade. Mas, mesmo depois do sinal verde da Anvisa, pode demorar algumas semanas para a disponibilização dos medicamentos nas farmácias.
Ozempic no SUS
A chegada de versões similares ou genéricas aumenta a expectativa de que novos remédios estejam disponíveis em breve no Sistema Único de Saúde (SUS). O Ministério da Saúde informou ter solicitado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) prioridade no registro de medicamentos compostos por semaglutida. Apesar de não confirmar planos de incluir o medicamento no SUS, o órgão destaca outras iniciativas já em curso no combate e prevenção do sobrepeso.
Nutricionistas e psicólogos das equipes multiprofissionais acompanham a população, com encaminhamento para serviços especializados — como a cirurgia bariátrica — quando necessário. A pasta da Saúde também investe em ações preventivas, como o Guia Alimentar para a População Brasileira, o Programa Academia da Saúde e o Programa Saúde na Escola, que estimulam hábitos saudáveis desde a infância.
Apesar de um aval do governo federal ainda não estar definido, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, anunciou na sexta-feira 13 de março a incorporação do medicamento na rede de saúde municipal. A medida foi realizada por meio de uma parceria com a Novo Nordisk. “O objetivo da cooperação técnica é criar condições para que a equidade de acesso seja ampliada, e gerar evidências de políticas públicas, para que esse modelo de cuidado integral e multidisciplinar às pessoas com obesidade seja replicável em escala cada vez maior no SUS”, declarou o responsável pela área de Parcerias Institucionais da Novo Nordisk, Conrado Carrasco.
O valor da ‘comida de verdade’
Com horizonte de impacto previsto, a indústria alimentícia não está parada. Pelo contrário, precisará remodelar-se e já está buscando como. Seria quase uma volta ao passado, para um mundo sem ‘comida de faz de conta’ – a exemplo de industrializados lotados de sintéticos e aditivos artificiais que simulam “sabor de alguma coisa” existente na natureza. Com a ascensão dos agonistas do GLP-1 e novas diretrizes nutricionais pela priorização de proteínas, o comportamento alimentar médio vem enfrentando mudanças. No meio do processo, a indústria alimentícia e ultraprocessados estão sob ataque.
A cientista de alimentos e nutricionista clínica Kantha Shelke, da Johns Hopkins University, no Estados Unidos, resume o novo imperativo da cultura alimentar em conceito bem conhecido dos brasileiros, o da “comida de verdade”. “Quando você começa a pensar em alimentos reais, as diretrizes são explícitas: aqueles que estão mais próximos do seu estado natural”, explica, citando grãos integrais, mínimo de aditivos e “ingredientes que o consumidor consegue imaginar crescendo no campo”.

A cientista de alimentos e nutricionista clínica Kantha Shelke, da Johns Hopkins University (Crédito:Divulgação/Abimapi)
Em palestra recente, durante o 19º Congresso Internacional de Indústrias Abimapi, entidade de classe que representa a indústria alimentícia, a especialista aconselhou empresários e executivos do setor brasileiro a mudarem a postura defensiva, alterarem fórmulas e transformarem sua comunicação com o público para resgatar níveis de crescimento. “Trabalhe com o consumidor, e ele trabalhará com você”, disse ela.
O caminho defendido pela especialista americana passa por menos aditivos e mais ingredientes naturais que as pessoas reconheçam. Segundo Shelke, os executivos devem assim seguir três passos: auditar o que pode e deve ser modificado; fazer substituições e reposicionar sua marca perante o mercado, recomendou. Para ela, as empresas do setor precisam assumir o controle da narrativa. O problema, continua, não está no processamento em si, mas no seu uso excessivo e desnecessário. Os ajustes devem assim ocorrer de forma pontual e efetiva. Alguns exemplos da cientista incluem trocar vinagre artificial por um ingrediente derivado de fermentação e naturalmente aromático; ou remover o conservante e melhorar a embalagem.