Como a guerra no Irã impactou os mercados e quais os riscos para economia global e o Brasil
A guerra envolvendo Israel, Estados Unidos e Irã elevou a tensão global e ameaça o fluxo de energia ao afetar o estratégico Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 25% do petróleo e gás do mundo. O conflito já fez o preço do petróleo subir de cerca de US$60 para US$90 e aumentou custos de frete e seguros marítimos, gerando volatilidade no dólar, nas bolsas e preocupações com inflação e juros. Para o Brasil, o impacto é ambíguo: o país pode se beneficiar das exportações de petróleo, mas pode sofrer com combustíveis mais caros, aumento de custos logísticos e possíveis prejuízos nas exportações agrícolas e de carnes para o Oriente Médio se a guerra se prolongar.
Epicentro de conflitos, embates geopolíticos e disputas político-religiosas, o Oriente Médio mantém o resto do planeta em constante estado de tensão. Na última semana, os ataques das forças de Israel e dos Estados Unidos ao Irã funcionaram como um despejo de gasolina de alta octanagem a um braseiro gigante – e as chamas ainda ardem e têm proporções desconhecidas.
O efeito imediato, com o estrangulamento do estratégico Estreito de Ormuz, onde passa 25% do petróleo e gás do mundo, é o custo energético global. Ao longo da semana, economistas e especialistas setoriais consultados pela IstoÉ Dinheiro buscaram organizar os fatos para mensurar as consequências do conflito aos preços do petróleo (base energética das economias).
Entram na lista seguro e frete de navios, inflação e juros, cotação do dólar, o efeito em bolsas de valores, exportações e importações e, por fim, o momento em que isso tudo poderá esbarrar na ponta das cadeias, para o consumidor final. O Brasil é resiliente hoje, mas tudo dependerá do tempo de duração do conflito. Há quem diga que um mês é suficiente para comprometer bastante o cenário logístico.
Até agora, o petróleo “subiu pouco” na visão de economistas, portanto, há espaço para altas. Um ponto central, em princípio, está no bloqueio do Estreito de Ormuz, o trecho de mar com pouco menos de 50 quilômetros de largura que conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã. Fechado oficialmente ou não, o ponto é que os navios não arriscam passar, o que afeta as cotações da commodity, de seguros marítimos e inviabiliza operações de comércio internacional.
O conflito se intensificou na quarta-feira, 4, quando um submarino norte-americano atingiu um navio de guerra iraniano, logo depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prometer segurança e escolta aos navios de petróleo que circulam no local em tentativa de conter alta de preços da energia.
Estreito de Ormuz
“O canal não está oficialmente fechado, mas está ameaçado pelo Irã. Então, há medo de passar por lá. Ontem me comentaram que o seguro por contêiner chega agora a US$ 4 mil dólares, o que é praticamente inviável. As empresas estão esperando diminuir a tensão”, explica Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil e sócio da consultoria BMJ.
O preço do petróleo, o principal reflexo imediato da eclosão da guerra, subiu logo na segunda-feira após o ataque iniciado no fim de semana. O barril saltou de um patamar de US$ 60 para US$ 90. Apenas a perspectiva de interrupção foi suficiente para impactar nos preços.
Para o mercado brasileiro, entretanto, esse impacto tem sido limitado, ao menos por enquanto. “O Brasil importa entre 5% e 10% da gasolina para o consumo interno. Já para o diesel, esse número chega a 30%”, diz Bruno Cordeiro, especialista da StoneX.
Alguns analistas acreditam que é preciso esperar mais alguns dias para projetar cenário mais claro. Malek Zein, da Suno Research, reforça que o ataque não alterou o cenário para oferta e demanda de petróleo no mundo. “O petróleo do Irã já é altamente sancionado. Mas é muito consumido pela China. A curto prazo você tem incerteza, e a incerteza leva à volatilidade”, completa. Nova alta de preços da commodity a partir deste momento dependerá do tempo de duração da guerra. Os recentes embates entre Israel e Irã duraram, no máximo, quinze dias.
Caso a guerra chegue a um mês o cenário ficará “bem mais complicado”, avalia o ex-Secretário de Comércio brasileiro, já que não só afetará a disponibilidade e preços de petróleo e seguros de navios e cargas de modo geral, como impactará a logística do comércio (importações e exportações) também para as companhias brasileiras que têm clientes na região. Os preços vão subir se houver danos à infraestrutura de produção e transporte de petróleo, algo que pode ser agravado caso os países produtores da região declarem guerra ao Irã, comenta Walter de Vitto, economista da consultoria Tendências.
Efeito ambíguo
Para a economia brasileira, a guerra tem um efeito ambíguo. Se por um lado o petróleo é um item importante da atividade econômica, incluindo exportações (o que somado às reservas cambiais torna o país resiliente a choques externos nesse campo), por outro há risco para a inflação e controle de juros. Afora o preço do petróleo e as expectativas no universo macroeconômico, a guerra chacoalha os mercados financeiros.
A bolsa brasileira, além do câmbio, vive volatilidade. O valor das empresas brasileiras encolheu R$ 166 bilhões na terça, 3, para R$ 5,3 trilhões. O tombo, um destaque no trimestre, foi, em parte, recuperado no dia seguinte. O confronto eclodiu às vésperas da próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, marcada para março. Zeina Latif, sócia da Gibraltar Consulting, avalia que o país tem “colchão” para absorver o impacto momentâneo da guerra no Oriente Médio. “A gente tem uma conta de petróleo que é superavitária, é o nosso principal produto de exportação, e o efeito inflacionário ele não é óbvio”.
A preocupação do mercado é o petróleo porque alterações bruscas de preços na commodity gera reflexos sobre a inflação – e, consequentemente, sobre o futuro da taxa de juros. “O risco inflacionário existe e pode levar o BC a ser mais cauteloso”, opina o economista Silvio Campos Neto, também da Tendências. A volatilidade é alta. Mas sem uma escalada ou alongamento do conflito no Irã, os efeitos sobre a inflação no Brasil tendem a ser baixos. Mesmo com a alta imediata no petróleo, a expectativa é que os preços recuem ao longo das próximas semanas.
Os economistas da Tendências acreditam que o conflito – ao menos nas atuais condições – não impeça o corte da Selic neste mês. O que pode ocorrer é um início de corte em ritmo mais cauteloso, em 25 pontos-base na próxima reunião. A taxa de juros é de 15% ao ano. Parte dos agentes do mercado brasileiro, por ora, ainda não considera impactos muito relevantes em comparação ao que era já esperado. Outras variáveis como desempenho do Produto Interno Bruto (PIB), quadro fiscal e eleições precisam ser inseridas nos modelos para a decisão, além da guerra no Irã.
“Para [a próxima reunião do] Copom, acreditamos que nada muda a princípio. Continuamos esperando o início do ciclo de cortes para a reunião de março. Porém, a incerteza causada pelo conflito pode levar a um encerramento do ciclo de cortes antes da hora. Mas isso dependerá da duração e tamanho do conflito”, disse André Valério, economista sênior do Inter. É leitura compartilhada por Zeina. Para a economista, se o Brasil estivesse em na fase final de um ciclo de corte de juros, a postura do Banco Central seria de maior cautela. “Não é o caso agora”, disse.
O secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, afirmou nesta semana que o conflito pode eventualmente antecipar a parada do ciclo de cortes de juros pelo BC caso se intensifique o cenário de incerteza e de repasse de preços. Ceron ponderou que o novo cenário geopolítico pode gerar efeitos positivos. Um deles é para o próprio setor de petróleo. Cordeiro, da StoneX, aponta tendência de aumento na busca pelo óleo bruto produzido no Brasil, principalmente pela China, consumidora do Irã.
Cadeias comprometidas
A aversão ao risco global fortaleceu o dólar, que beira os R$ 5,20, e beneficia quem exporta, mas encarece insumos importados. No comércio, a instabilidade sobre o petróleo e preços de fretes e seguros marítimos pode gerar um efeito cascata para a compra e venda de produtos agrícolas, como soja, milho, açúcar e proteínas de origem animal. No agro, a importação de fertilizantes é fundamental (os brasileiros compram quase a totalidade de mercados externos) para o plantio das culturas. Caso o conflito se prolongue poderá encarecer a safra agrícola 2026/2027, cujos insumos começam a ser comprados em meados de abril ou maio. O Irã está entre os fornecedores de adubos em forma de ureia e fertilizantes nitrogenados.
A indústria química é um dos segmentos que poderão ser afetados se o conflito continuar mais tempo. O Brasil, embora um exportador líquido de petróleo, é um importador líquido de derivados, como diesel, GLP e nafta – matéria-prima dessa indústria. Outro é a indústria de proteínas. Ainda que o Irã isoladamente não represente um grande destino para a carne de frango do Brasil, o Oriente Médio responde por mais de 30% das exportações brasileiras. Só em 2025 foram embarcadas cerca de 1,6 milhão de toneladas para os países da região.
A maior parte dessa carne acessa a região exatamente pelo Estreito de Ormuz. Com exceção da Arábia Saudita, que utiliza prioritariamente o porto de Jeddah, no Mar Vermelho, Emirados Árabes, Iraque, Kuwait e Catar dependem que as cargas entre em seus portos passando por Ormuz. Na prática, metade do frango brasileiro que chega ao Oriente Médio passa pela região ameaçada pelo Irã. Por enquanto, as empresas estão avaliando os reais impactos sobre os embarques, informou a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
Já a indústria de carne bovina é uma das que mais podem sentir o impacto de um agravamento do conflito com o Irã, já que está em risco a venda de carne halal, produzida e preparada segundo os princípios da lei islâmica e que também depende da rota para escoar mais de 28 mil toneladas mensais do produto. As exportações brasileiras de carne bovina para os países árabes somaram receita de US$ 1,79 bilhão no ano passado. O dado é da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira. Com o resultado, o Brasil registrou o segundo recorde consecutivo de receitas com o bloco.
Nem só a capacidade logística entra no radar nesses momentos. Frederico Favacho, sócio do escritório Santos Neto Advogados, diz que a atual conjuntura coloca em risco a segurança jurídica dos contratos de exportação fechados pelas empresas brasileiras. “Os contratos não ficam imediatamente suspensos por conta de força maior ou outra condição, na medida em que os exportadores brasileiros possam ter outras rotas, como, por exemplo, o Mediterrâneo. Só que são rotas mais caras e mais complicadas”, finaliza.