Com queda do preço do açúcar e guerra no Irã, agro brasileiro acelera aposta no etanol
O aumento das tensões no Oriente Médio e a alta dos combustíveis tendem a favorecer o setor sucroenergético, incentivando a migração da produção de açúcar para etanol. Com o açúcar em baixa devido ao excesso de oferta global, usinas brasileiras já reduzem sua participação no adoçante para priorizar o etanol, que pode ganhar competitividade com o petróleo mais caro. Ainda assim, o setor enfrenta desafios, como a concorrência do etanol de milho e a necessidade de manter preços viáveis para garantir rentabilidade.
O acirramento do conflito no Oriente Médio e a consequente disparada no preço dos combustíveis beneficiarão o setor sucroenergético, pressionado pela queda no preço do açúcar e pela competição com o etanol de milho.
Segundo dados da StoneX, o açúcar está atualmente negociado na faixa dos preços mais baixos dos últimos 10 anos, comparável com o período da pandemia da covid-19. Em meio à tensão baixista, o movimento de migração para o etanol já está acontecendo.
“Nós vamos ter uma produção estimada de 40 milhões de toneladas de açúcar. É uma produção relativamente ainda grande, só que já começa a trazer sinais de uma migração”, afirma o economista Ricardo Nogueira, gerente comercial de açúcar e etanol da StoneX. “O preço do açúcar vem caindo muito, e agora o etanol voltou a ser a bola da vez.”
Entre as empresas a iniciar esta mudança está a SCA Brasil. “Projetamos um recuo no mix de produção de açúcar das usinas do Centro-Sul de 51% para uma margem entre 47,5% e 48,5%”, afirma seu CEO, Martinho Seiiti Ono.
A migração já ocorria pressionada pela tendência baixista no adoçante de cana. Agora, surge um novo impulso com a expectativa de preços mais altos dos combustíveis após o fechamento do Estreito de Ormuz, canal no litoral iraniano por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial.
Superávit de açúcar
O advento de estilos de vida mais saudáveis e de medicamentos para sobrepeso como os agonistas do GLP-1 desaceleraram o crescimento do consumo de açúcar. Enquanto a StoneX monitorava avanços anuais de 2,5% até 2015, o avanço diminuiu para cerca de 1% ao ano no período pós-pandemia.
A queda de consumo é impulsionada sobretudo pelos Estados Unidos e União Europeia. Ao mesmo tempo, a demanda segue ascendendo alavancada por uma maior urbanização na Ásia e pelo crescimento demográfico global. A redução dos preços no adoçante de cana está assim muito mais ligada a um excesso de oferta.
“A queda nos Estados Unidos e na Europa ainda não equilibrou o crescimento de demanda em China, Ásia, Indonésia. Mas você teve grandes safras nos últimos anos, principalmente em Índia e Tailândia, que geraram esse produto adicional”, comenta Ricardo Nogueira, da StoneX.
Apenas as usinas indianas produziram 26,18 milhões de toneladas métricas de açúcar entre 1º de outubro e 15 de março, um aumento de 10,4% em relação ao ano anterior.
Segundo os cálculos da StoneX, há um excedente de 870 mil toneladas de açúcar na safra 2025/2026. “Caso se confirme esse cenário de troca de mix do açúcar para o etanol, esse superávit global, que é bem pequeno, volta pra déficit novamente. Aí podemos ver os preços voltarem a subir”, analisa Nogueira ao apresentar os dados durante o 19º Congresso Internacional de Indústrias Abimapi. O movimento de plantas brasileiras rumo ao mix mais alcooleiro possível poderia tirar 2 milhões de toneladas do mercado.
O disputado mercado de etanol
A migração para um perfil mais voltado ao combustível no entanto não garante sozinha um bom momento para o setor, que precisa também que os preços do etanol permaneçam competitivos.
“Considerando uma média aproximada, os preços do etanol operaram abaixo do custo de produção entre 2023 e 2024, quando tivemos safra recorde no Centro-Sul brasileiro somada ao crescimento na casa dos 30% na produção de etanol de milho e à queda nos preços da gasolina”, explica Nogueira.
O etanol de milho tem um custo menor, além de conseguir produção o ano inteiro — a safra de cana começa em abril e termina entre outubro e novembro. “Praticamente a cada mês aparece uma empresa nova construindo uma planta de etanol de milho. Você tem uma oferta crescente”, diz o especialista.