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CEO do iFood diz que taxa mínima de R$ 10 é prejudicial para o mercado e entregador
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Brasil/Mundo

CEO do iFood diz que taxa mínima de R$ 10 é prejudicial para o mercado e entregador

Redação com web

Com diálogos que se iniciaram em meados de 2020, o iFood vislumbra avanços substanciais na aprovação de uma regulamentação do segmento de delivery de comida, entretanto considera a taxa mínima – uma proposta do governo, e não da companhia – um ‘entrave’ para que a proposta avance e seja, enfim, concretizada, e também algo ‘prejudicial ‘para a empresa e também para o entregador’.

Segundo o CEO do iFood, Diego Barreto, uma taxa mínima de entrega de R$ 10 não inviabilizaria o negócio do iFood economicamente. Todavia, isso representaria um acréscimo percentual muito alto no caso de pedidos de preço nominal mais baixo. O executivo concedeu entrevista ao Dinheiro Entrevista. O programa completo vai ao ar na próxima quinta-feira, 19.

Com isso, o CEO do iFood alega que o volume total de pedidos da plataforma seria menor – e portanto o montante total repassado aos entregadores seria menor também, ainda que com a taxa sendo implementada.

Na contramão, as propostas relativas à proteção social tiveram avanços nos diálogos e tornam o projeto mais próximo de ser aprovado – em outras palavras, as duas partes, governo e iFood, já entraram em consenso acerca do tema, ao passo que a taxa mínima ainda não é algo que a plataforma de delivery está disposta a aceitar e é vista como obstáculo para que a proposta saia do papel após anos.

“Em relação à regulação que tá sendo discutida para os entregadores, o iFood apoia e entende que tem que existir, sim, uma regulação. Já existe um bom caminho, um bom nível de entendimento naquilo que envolve a proteção social, a previdência, seguro, entre outros itens. Benefícios e proteções que levam à dignidade – coisas que via de regra, a grande maioria o iFood já faz – e que estão indo para dentro de uma lei”, diz Barreto.

“O que ainda existe é um ponto de discordância é a forma de remunerar o entregador. O iFood vê a proposta de cobrar R$ 10 no mínimo por entrega como algo que vai reduzir o tamanho do mercado e vai ter um impacto direto sobre a geração de renda do entregador, além de movimentar o entregador da plataforma do iFood para o restaurante, o que diminui a capacidade de fiscalização do governo, que poderia simplesmente fiscalizar a partir de uma única plataforma”, completa o executivo, que lidera a companhia desde maio de 2024.

A visão é de que esse patamar de taxa mínima ‘não respeita a lógica dos pedidos mais baratos que são inviabilizados se a taxa for muito alta’.

Acerca das mudanças do mercado que ‘empurram’ o entregador para o restaurante, o executivo entende que, em linhas gerais, a fatia de entregadores próprios – que são contratados pelos restaurantes – aumentaria ainda mais.

Atualmente, essa já é a maior fatia, com mais de 60% dos entregadores sendo contratados diretamente pelos restaurantes e atuando dentro da plataforma – portanto com uma dinâmica de trabalho distinta e sem os direitos de proteção social.

Ou seja, a maioria dos entregadores plugados à plataforma não atua como ‘entregador parceiro do iFood’ e, com essa decisão, abrem mão de seguros da plataforma, dado que não são vinculados formalmente ao sistema logístico da empresa.

Barreto considera que esse movimento ocorre por que, no fim do dia, é mais barato para os restaurantes ter um motoboy próprio em detrimento de usar um motorista parceiro do iFood – um custo logístico considerado ‘caro’ por alguns players, nas palavras do CEO da companhia.

Em que pé está a discussão da regulação

A interlocução entre os representantes do iFood e Brasília tem sido intermitente, desde o início de formulação das propostas – que partiu da empresa – mas o espaço para a negociação ficou mais apertado com propostas como a da taxa mínima, consideradas como fatores que engessam o modelo de negócio e trazem impactos econômicos globais.

Desde meados de 2023 o Governo Federal vem atuando com grupos de trabalho formados por representantes de trabalhadores, sindicatos e plataformas digitais para discutir a regulação da chamada gig economy.

Ainda em março deste ano, o debate sobre a regulação dos entregadores de aplicativos atingiu um dos seus pontos mais críticos e decisivos – após anos de impasses, o cenário agora é de uma queda de braço no Congresso Nacional.

De forma, geral, são três propostas na mesa:

  • A do Governo Federal, de R$ 10,00 por entrega  e R$ 2,50 por quilômetro rodado
  • A do relator do projeto no parlamento, o deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE), de R$ 8,50 por entrega, como um meio-termo para evitar que corridas curtas (que hoje custam menos) desapareçam
  • A das empresas do ramo, que alegam que uma remuneração por hora seria mais saudável, dado que o valor fixo por entrega pode elevar custos em até 42% e excluir milhares de entregadores

O iFood tende a direcionar o projeto para um caminho que preserve a autonomia da empresa (sem vínculo empregatício pela CLT) e a flexibilidade de horários, tendo como principais bandeiras propostas como a inclusão previdenciárias através do apoio a um modelo de contribuição simplificado para que o entregador tenha acesso a benefícios do INSS (aposentadoria, auxílio-doença) e seguros e auxílios que contemplam manutenção de seguros contra acidentes e auxílios para educação e saúde, mas sem a obrigatoriedade de um salário fixo.

O Governo Federal, via Ministério do Trabalho – liderado por Luiz Marinho – defende, além da taxa mínima, medidas que chama de ‘trabalho decente’, com propostas centrais enviadas ao Congresso que incluem também:

Aumento de detalhes sobre os algoritmos, obrigando as empresas a explicarem como as corridas são distribuídas e como as taxas são calculadas

Limitação das taxas, com proposta de que a taxa de intermediação retida pela plataforma (comissão) não ultrapasse um teto (discute-se algo próximo de 30%)

Sistema previdenciário que inclua contribuição patronal obrigatória das plataformas para a seguridade social dos trabalhadores

O que diz Marinho

O ministro Luiz Marinho tem mantido uma retórica firme contra o que considera ‘exploração’.

Em suas falas mais recentes, deste mês de março de 2026, o ministro chegou a dizer que o modelo atual é o ‘pior dos mundos’ por não oferecer segurança financeira diante de acidentes.

“O pior dos mundos é a situação atual. Ela é ruim para o entregador e para o motorista. [É preciso] ter uma lei que estabeleça uma segurança mínima”, disse Marinho em declaração logo após uma reunião na Residência Oficial da Câmara dos Deputados com o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB).

Em coletiva de imprensa após um almoço promovido pela Sescon-SP, também neste mês de março, Marinho alegou que as empresas do ramo estão ‘abusando’ os trabalhadores.

“As empresas estão abusando dos trabalhadores nesse sentido. Porque, como não tem nenhuma regulação, todo planejamento de negócio vai buscar tirar o máximo de resultado, disse o ministro.

“As empresas implantaram esse modelo de negócio no Brasil sem nenhuma regulação, um erro gravíssimo do governo da época. Não devia ter permitido iniciar sem regular”, completou.

iFood paga ‘seguro acidente’ de até R$ 3 mil mesmo sem regulação

Vale destacar que, mesmo sem a regulação formal e mandatória, o iFood já provê recursos de proteção social para entregadores, oferecendo inclusive um seguro de acidentes pessoais gratuito que protege o entregador desde o momento em que ele aceita um pedido até o retorno para casa (limitado a 2 horas ou 30 km após a última entrega).

A cobertura é automática para todos os entregadores ativos na plataforma, não exigindo nenhum tipo de pagamento ou adesão prévia.

Esse recurso contempla o reembolso de despesas médicas e odontológicas de até R$ 15 mil, além de indenizações de até R$ 120 mil em casos de invalidez permanente ou morte acidental.

Para quem precisa parar de trabalhar para se recuperar, o seguro oferece o Auxílio de Incapacidade Temporária – nesse caso, com valores que vão até R$ 3 mil por evento, provendo uma renda para o entregador durante o período que ele precise ficar afastado.

Para acessar acionar o benefício, basta que o entregador entre em contato com a Central de Segurança pelo próprio aplicativo, via WhatsApp ou pelo telefone 0800 da seguradora parceira.

O procedimento demanda, do trabalhador, que ele apresente todos os laudos, receitas e comprovantes médicos, a fim de que a seguradora analise o caso e libere os pagamentos.

Como o projeto tem andado no Congresso

O presidente da Câmara, Hugo Motta, deve levar ao plenário o projeto até este mês de abril, mesmo sem consenso na casa acerca da proposta.

Na versão mais recente do projeto, apresentada em dezembro de 2025, o piso previsto era de R$ 8,50 por entrega – proposta do relator do projeto, o deputado Augusto Coutinho.

Guilherme Boulos (PSOL), da Secretaria-Geral da Presidência, chegou a dizer que as críticas das plataformas são ‘terrorismo econômico’. O vice-presidente de relações institucionais da Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (AMOBITEC), Marcelo Ramos, diz que o setor vê, na verdade, um ‘realismo econômico’ para o chamado PL dos Aplicativos.

iFood não se vê como ‘monopólio’

Acerca de práticas concorrenciais, o CEO do iFood rebateu que não considera que a empresa domine uma grande fatia do mercado. Isso considerando que embora a empresa tenha o maior share nas entregas por aplicativo, o share de delivery global- contemplando até mesmo os pedidos por telefone – da empresa fica abaixo de 30%.

Nesse sentido, aliás, o executivo espera um aumento da diversificação de receita nos próximos anos.

Atualmente mais de 70% da receita do iFood em solo brasileiro vem de entregas de comida – ante cerca de 30% que vem da operação da fintech da empresa, que concede mais de R$ 100 milhões em crédito para restaurantes, e delivery de mercado e farmácia.

“O iFood continua crescendo a taxas exponenciais e o principal motor de crescimento para essas taxas, hoje, está muito ligado à farmácia, mercado e fintech. Hoje esses segmentos crescem acima de 70% por ano. Com isso, essas novas verticais já atingiram cerca de 30% da receita e estão a caminho de representarem metade da receita nos próximos anos”, conta Barreto.

Redação com web

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