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Cacau atinge preço mais baixo em três anos. Por que o chocolate não ficou mais barato?
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Brasil/Mundo

Cacau atinge preço mais baixo em três anos. Por que o chocolate não ficou mais barato?

Redação com web

Apesar da forte queda no preço internacional do cacau — mais de 80% desde o pico em 2024 —, os preços do chocolate seguem altos no Brasil devido ao uso de estoques comprados quando a commodity estava cara. A indústria também reduziu custos com mudanças de fórmula e tamanho dos produtos, mas ainda repassou aumentos ao consumidor, o que diminuiu o consumo. A expectativa é que os preços comecem a cair apenas no fim de 2026, com a normalização da produção global afetada por mudanças climáticas.

Após atingir a máxima histórica em dezembro de 2024, negociado na casa dos US$ 12,5 mil, a cotação do cacau despencou mais de 80% e chegou ao preço de US$ 2,5 mil neste mês de março. A negociação do insumo ocorre em patamares baixos, registrados pela última vez em 2023. Os dados são da StoneX, empresa de serviços financeiros e uma das maiores corretoras de commodities do mundo.

Já nas prateleiras dos supermercados, os preços não recuaram. A alta acumulada em 12 meses do chocolate em barra e bombons atingiu 24,87% em março, segundo dados do IPCA-15, a prévia da inflação oficial do país. No chocolate e achocolatado em pó, o avanço é de 17,84% em março.

Gerente Comercial de Açúcar da StoneX, Rafael Crestana explica em entrevista à IstoÉ Dinheiro que, apesar do recuo dos preços do cacau no mercado internacional, os produtos disponíveis no mercado foram fabricados com o seu principal insumo adquirido ainda nas máximas históricas. Como as empresas trabalham com estoque, é provável que ainda demore até os consumidores sintam os efeitos do barateamento da commodity.

Preço do cacau negociado em Nova York entre 2021 e 2026

Preço do cacau negociado em Nova York entre 2021 e 2026 (Crédito:StoneX)

A indústria chocolateira

Para além da alta dos preços, o chocolate passou por outras transformações para driblar o encarecimento do cacau. Rafael Crestana explica que a indústria alimentícia mudou em estágios: primeiro, reduziu margens de lucros; depois, trocou a gramatura, ou seja, reduziu o peso sem alterar o preço; por fim, promoveu mudanças na fórmula, até mesmo com troca do chocolate por componentes “sabor chocolate”, que não contém a mesma quantidade de cacau.

As medidas foram consideradas insuficientes, e o aumento do preço ocorreu de qualquer forma. Com o encarecimento, o consumo caiu, sobretudo em mercados acostumados com chocolate de alta qualidade, como Estados Unidos e Europa.  “O preço fez mudar o comportamento da demanda”, explicou Rafael Crestana durante uma palestra no 19º Congresso Internacional de Indústrias Abimapi.

Apesar de não contar com dados exatos sobre o recuo no consumo, a StoneX informa que uma contração de 7,33% na moagem de cacau em dezembro de 2024 na comparação com o ano anterior dá uma ideia desta queda. Crestana destaca que a baixa provavelmente foi ainda maior, pois ainda há estoques tanto entre produtores como na indústria dos subprodutos usados na fabricação de alimentos (licor, manteiga, pó).

StoneX

O especialista acredita assim que, uma vez vendidos os estoques de chocolate produzido com insumos mais caros, a indústria deverá promover reajustes para baratear o produto de novo e encontrar um novo preço de equilíbrio. “Nossa visão é que vai ser no final deste ano ou começo do ano que vem”, diz.

 

+O café é o novo cacau? Entenda por que especialistas preveem queda drástica nos preços

Frutos de cacau

Por que o cacau encareceu?

A aceleração das mudanças climáticas impactou fortemente a produção de cacau no período pós-pandemia. A crise nas safras teve início em 2022. Países da África Ocidental, como Costa do Marfim e Gana, foram os maiores afetados. Assim, por anos consecutivos, a oferta mundial ficou aquém da demanda, e as empresas passaram a tentar precificar o cenário complicado.

“A gente viu com os nossos próprios clientes, no mercado como um todo, acontecendo os efeitos de mudança de fórmula, mudança de embalagem. O último efeito foi repasse de preços”, recorda  Crestana.”No meio do ano passado, aconteceu do mercado cair. Por consequência, o preço da amêndoa e dos derivados de cacau também tem caído já há praticamente 9 meses.”

Crestana afirma ainda que o noroeste africano finalmente começa a dar sinais de recuperação, e que novos players começaram a se posicionar com maior importância, como Brasil e Equador. “Existe uma intenção de troca de cultura. Então é algo que também traz um indicativo de que essa inflexão pros preços no cacau está acontecendo”, conclui.

*A entrevista ocorreu durante o 19º Congresso Internacional das Indústrias Abimapi. O repórter viajou para o evento à convite da Abimapi (Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias, Pães & Bolos Industrializados). 

Redação com web

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