Brasil tem potencial para ser maior produtor de cannabis do mundo, diz coordenadora da Embrapa
A Embrapa recebeu autorização da Anvisa para desenvolver pesquisas com cannabis, focadas no uso medicinal e na produção de fibras (cânhamo), com potencial de se tornar uma nova fronteira agrícola no Brasil. Inspirado no sucesso da soja, o projeto prevê estudos de longo prazo sobre melhoramento genético, adaptação ao clima e criação de uma cadeia produtiva, apesar dos desafios como o limite de 0,3% de THC e a necessidade de desenvolver variedades adequadas às condições brasileiras.
A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), recebeu, no final de 2025, autorização da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para estruturar seu programa de longo prazo de pesquisa com cannabis focado em melhoramento genético para fins medicinais e fibras da planta.
Com isso, a Embrapa tem potencial de repetir o sucesso que teve com a soja, quando, graças às pesquisas iniciadas pela instituição há cerca de 50 anos, levaram ao “milagre do cerrado”, ao se conseguir o cultivo e a alta produtividade do grão em regiões tropicais, por meio do melhoramento genético. Hoje, o Brasil é o maior produtor e exportador de soja de planeta.
É o que afirma a pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia Daniela Bittencourt, à frente das pesquisas sobre o potencial produtivo da cannabis no Brasil como nova fronteira agrícola com grande perspectiva econômica para o cânhamo e o desenvolvimento de uma cadeia produtiva completa. “A cannabis tem tudo para ser a nova soja para o Brasil, que tem potencial para ser o maior produtor de cânhamo do mundo”, diz Bittencourt. A pesquisadora, motivada por sua experiência pessoal com óleo de cannabis nos EUA.
Em fevereiro deste ano, a Anvisa também autorizou o plantio de cannabis, ou cânhamo, com a finalidade de pesquisa, para outras instituições interessadas, o que abriu portas para mais pesquisas sobre o tema, principalmente no uso medicinal da planta. Mas para além de medicamentos, as pesquisas, especialmente na Embrapa, também querem encontrar a melhor produtividade da planta para outros derivados, com podem chegar a casa dos milhares. Seu uso pode ser como fibra, assim como o algodão, para cosmético, uso veterinário e até mesmo para recomposição de solos degradados.
Quatro unidades da Embrapa participam do projeto:
- Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF)
- Clima Temperado (RS)
- Algodão (PB)
- Agroindústria Tropical (CE)
- Agricultura Digital (SP)
A distribuição geográfica é estratégica, justamente para estudar sobre o desenvolvimento da planta em diferentes climas, já que a incidência solar é um fator de peso no cultivo do cânhamo. Até porque, a autorização da Anvisa limita a 0,3% de THC (princípio ativo da cannabis) e o cientistas terão que, primeiro, desenvolver um “cultivar” ideal que não ultrapasse esse percentual. Uma planta que receba muita luz solar, por exemplo, pode ter muito mais que THC. Bittencourt diz que é possível que a Anvisa reveja esse percentual, mas, a princípio, o critério se mantém.
“O limite de 0,3% de THC estabelecido pela regulamentação representa um desafio para a estabilidade genética da planta nas condições climáticas do Brasil. Fatores como clima, luminosidade e temperatura podem interferir diretamente na quantidade de THC produzida pela planta. O cultivo em um ambiente controlado (indoor), com controle de fotoperíodo, é uma forma de mitigar essas dificuldades”, explica ela.

Cannabis usada para extrair óleo medicinal de CBD em laboratório REUTERS/Kira Duarte
O projeto, com financiamento pela Finep de R$ 13,2 milhões para a estruturação genética, é realmente de longo prazo e não é possível nem usar a metáfora de que “a semente foi plantada”, pois uma das primeiras fases do projeto é justamente o desenvolvimento de uma variedade de semente que dê origem à planta ideal. Neste momento, a Embrapa aguarda a visita técnica da Anvisa para a liberação e início das pesquisas.
Os recursos para a pesquisa envolvem, além do desenvolvimento de um banco de germoplasma (material genético) focado em melhoramento genético, também a infraestrutura de plantio, o que envolve câmeras de vigilância e outros equipamentos de segurança e controle de acesso e incineração.
A produção do cânhamo (com teor de THC abaixo de 0,3%) para fibras e sementes é vista como o grande potencial para o agronegócio, devido à possibilidade de produção em maior escala. O cultivo para fins medicinais, embora importante, deve ser em áreas menores, por conta da necessidade de controle fitossanitário.
O Grupo de Trabalho da Embrapa traçou uma estratégia para um programa de pesquisa de no mínimo 12 anos, abrangendo desde a semente até o produto final, com foco tanto no medicinal (produção de CBD) quanto no melhoramento para fibras. Três projetos estruturantes foram desenhados: melhoramento genético para fins medicinais, melhoramento para fibras (a ser coordenado pela Embrapa Algodão), e o desenvolvimento de um banco de germoplasma na unidade de Brasília.